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Sustentabilidade é sobrevivência

Sustentabilidade é sobrevivência

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Seção: Editorias - Categoria: Sustentabilidade
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Qui, 29 de Janeiro de 2009 08:04

Especialista em educação ambiental e educação para a sustentabilidade, depois de graduar-se pela USP em comunicação, Miriam fala alicerçada em trajetória profissional de 25 anos. E mostra preocupação com o quadro político municipal do País porque “nem sempre os eleitos são os mais afinados com as questões planetárias mais contundentes”. E que não se diga que é por falta de leis que o Brasil não toma jeito.

A constituição Federal define com clareza as atribuições de legisladores e gestores, lembra. Mas a diretora do Ecoar lamenta que há muito tempo nossas câmaras municipais, assim como as assembléias legislativas e o congresso nacional, não legislem a contento.

Miriam admite que até pode haver avanços esporádicos e deixa escapar alguma esperança de que políticos mais jovens e independentes consigam se impor num cenário em que ainda prosperam “velhas raposas”. Pena que justamente esta fauna esteja livre da ameaça de extinção, ao contrário das que nos caberia preservar. “Infelizmente, no Brasil, uma carreira política ainda é ditada (em grande parte) pelo poder econômico”, avalia.

Trágico exemplo

Para não ficar só na teoria, Miriam cita o trágico exemplo do que aconteceu recentemente no sul do País. Ela argumenta: “as campanhas políticas municipais, pelo menos aquelas dos grandes centros, passaram longe de temas fundamentais para o século XXi, como a mitigação da emissão de gases de efeito estufa e a questão da adaptação das cidades aos novos padrões climáticos. Se Santa Catarina estivesse adaptada, o efeito das fortes chuvas não teria se transformado em uma tragédia das dimensões que vimos. E o pior é que, mesmo após a tragédia, o Brasil se mobilizou para ajudar as vítimas - o que é justo, bonito de se ver e necessário, mas não o suficiente. Ninguém discute seriamente em como serão reconstruídas as cidades, a infra-estrutura, as moradias. Será mantido o mesmo padrão de ocupação fundiária, mesmo sabendo que cientistas já anunciaram que fenômenos extremos, como os que ocorreram em Santa Catarina, devem intensificar-se e ficar mais constantes?”.

O que Miriam sugere é que os políticos brasileiros atuem como gestores ambientais, de modo a se preocupar com o planejamento do uso do solo. Para o que devem levar em conta a capacidade de suporte dos ecossistemas, entre outras medidas. Em suma, “a gama de responsabilidades da gestão ambiental é enorme e deveria estar colocada em todas as instâncias da administração municipal, e não ser órgão separado, isolado”, aponta.

Tomar as rédeas

Ao mesmo tempo, para a especialista, cabe aos cidadãos e às cidadãs interferirem fundo na questão da sustentabilidade, desde a escolha de seus eleitos e no exercício da pressão sobre os gestores públicos, para que cumpram suas promessas de campanha, coloquem a legislação em prática. Em esquecer de serem “consumidores responsáveis que se recusam a adquirir produtos e serviços de empresas que não sejam socioambientalmente corretas”.

Trata-se de melhorar o nível de consciência e participação política do brasileiro, que para Miriam está razoável; falta se traduzir em ação transformadora. Ainda seríamos um dos povos mais preocupados com o aquecimento global. Não obstante, o Brasil é um dos poucos países em que a seriíssima questão da adaptação às mudanças climáticas não está sequer em debate na sociedade.

A diretora da Oscip não tem dúvida: “alguma coisa está errada. temos de estimular a sociedade civil a entender que ela precisa tomar as rédeas da situação, pressionando os políticos a fazer a parte deles, ao criar políticas públicas ambientalmente responsáveis e fiscalizar para que a boa legislação ambiental brasileira seja cumprida”.

Alguns meios, ainda que iniciais, para aprimorar a participação cidadã no processo político, que deveriam ser utilizados, no entender da especialista, seriam a adoção do voto facultativo e, mais do que ele, o voto distrital. Acessar sites de partidos políticos para conhecê-los melhor e suas propostas, também é uma atitude; e, mais que isso, acessar sites de análises críticas da atuação de políticos e aí, sim, conferir se de fato há coerência deles entre discurso e prática.

Referência pública

Miriam entende que a sustentabilidade é conceito que se aplica a todas as esferas de organização da sociedade e princípio que deve ser aplicado em conjunto, cabendo à administração pública ser a referência. Nada muito mirabolante nem pirotécnico.

A especialista recomenda aos empossados em janeiro que: se recusem a comprar produtos de madeira sem comprovação de origem; exijam que as obras de todas as esferas governamentais sejam realizadas com materiais de construção menos impactantes; não financiem empresas poluidoras; punam severamente quem descumprir a lei; eliminem o desperdício no consumo de luz e água; reformem prédios públicos para obter maior eficiência energética; aumentem a permeabilidade do solo; e incentivem o reuso de água.

A diretora do Ecoar e do Oscip vê os brasileiros como “sobreviventes de um processo histórico que tentou, ao longo dos séculos, fazer de nós um povo inútil, massa de manobra de políticos desonestos e elites oportunistas”. Acredita, porém, na capacidade de nossa gente ir à luta: “sobrevivemos a esse tempo, crescemos, nos educamos, democratizamos o País, construímos uma infra-estrutura invejável, uma agricultura supermoderna, desenvolvemos tecnologia de ponta”.

Miriam aponta desafios pela frente e como enfrentá-los: “temos dificuldades para escolher e cobrar de nossos governantes posturas mais contundentes, mais corajosas, que ajudem o País a sair mais rápido do estágio de emergente e passar de vez a fazer parte dos desenvolvidos”. O que, a seu ver, só é possível com índices decentes de emprego, eqüidade social, saúde, educação e cuidados com o meio ambiente.

Com jeito ou sem jeitinho


Miriam chega a ser ácida: “ainda não vencemos totalmente o espírito de complacência, da leniência, do jeitinho, do passar a mão na cabeça dos culpados. Isto nos causa problemas terríveis, uma sensação de impunidade, de não ver a luz no fim do túnel”. Todavia, acredita que esse é um processo histórico que “vamos vencer, temos de vencer - mais cedo ou mais tarde. só depende de nós”.

Pode ainda estar longe, mas a especialista aposta no que chama de “minha utopia”. Que é “o tempo em que o Brasil entenderá a grandiosidade da missão que tem a cumprir no mundo, de ser um país miscigenado, multirracial, multirreligioso, com bens naturais extraordinários, com uma população trabalhadora, alegre, otimista, aberta, inovadora e criativa; modelo para o planeta: de paz, respeito à diversidade, conservação ambiental, justiça social e desenvolvimento sustentável”.

Para isso, Miriam defende que as administrações públicas que se iniciam em 2009 “se alinhem com as administrações modernas, pós-contemporâneas. Que percebam que a gestão ambiental não é mais da alçada só de ambientalistas ou de ecochatos, como sempre nos chamaram, mas é questão vital para o planeta”.

A sustentabilidade municipal deve levar em conta:

• Os impactos das obras de urbanização;
• A permeabilização do solo;
• O meio periurbano e o rural;
• O gerenciamento dos recursos hídricos florestais e das bacias hidrográficas