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Causas antropogênicas

Causas antropogênicas

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Seção: Editorias - Categoria: Sustentabilidade
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Qui, 25 de Fevereiro de 2010 19:01
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Manifestações devastadoras da natureza, como as chuvas torrenciais que inundaram São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba (SP), mal 2010 tinha começado, estão a pedir muita reflexão, pesquisa e cuidados para que algo de positivo fique de tanta tragédia.

Por ironia, o nome de origem tupi-guarani - Parahytinga significa águas claras - em nada lembra o cenário de guerra que restou de edificações históricas na, de acordo com o site da Prefeitura Municipal, “cidade das mil festas, rica em turismo histórico, cultural, ecológico e de aventura”, a 170 km da capital paulista.

 

 

O estado de calamidade pública ainda vigente levou ao cancelamento de um dos carnavais mais típicos do País. Uma medida sensata porque a situação não está para festas.

Numa tentativa de ajudar a entender fenômenos como esse, NEO MONDO conversou com o Dr. Carlos Afonso Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que abriga o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec). Graduado em Engenharia Eletrônica, com doutorado em Meteorologia, Carlos Nobre é respeitado dentro e fora do País como chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CST) do Inpe, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e presidente do Comitê Científico do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP), sediado em Estocolmo, Suécia.

 

Variabilidade natural

Na opinião do cientista, é praticamente consensual entre seus pares que “a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa (GEE) emitidos por atividades humanas. Eu considero que mudanças climáticas importantes são esperadas – e muitas já estão acontecendo - em consequência desse aquecimento antropogênico da Terra”.

A sua explicação sobre as manifestações devastadoras da natureza, como chuvas torrenciais, deslizamentos, soterramentos, de um lado, e inverno rigoroso, de outro, embute um sinal de alerta: “Fenômenos climáticos e meteorológicos extremos – que provocam chuvas torrenciais e nevascas, por exemplo - acontecem regularmente e fazem parte da variabilidade natural do planeta. Porém, como resultado do aquecimento global antropogênico, espera-se um aumento da variabilidade do clima e eventos como os citados - com áreas sob frio intenso enquanto em outras a temperatura está muito acima da média - poderão ser mais frequentes. É preciso destacar que chuvas torrenciais, secas, ondas de calor ou de frio, ventanias, ressacas são as causas ambientais de desastres naturais, mas não são os desastres naturais em si. Desastres naturais (deslizamentos em encostas, inundações, colapso de safras etc.) são consequência das causas ambientais e sua gravidade está muito ligada à exposição da sociedade aos extremos do tempo e do clima e à capacidade de lidar com esses extremos”. Carlos Nobre, convidado a criar uma imagem para nossos leitores entenderem melhor o que se passa com o clima no planeta, relata:

“Invernos rigorosos são parte da variabilidade natural do clima. Aliás, por exemplo, no Hemisfério Norte ocorreram invernos muito mais rigorosos no início do século XX. Acontece que as pessoas passaram muito tempo sem um inverno extremamente rigoroso, como o atual em partes do Hemisfério Norte”. Atenção para o que vem agora, porém: “Um fator preocupante do aquecimento global é a velocidade com que vem ocorrendo, que é cerca de 50 vezes mais rápida em relação ao ritmo de aquecimento entre uma época glacial e uma época interglacial, como a que nos encontramos”.

 

Terra ameaçada

É comum ouvir-se expressões, vindas dos mais diversos segmentos da população, a exemplo de “a natureza é sábia” ou “a natureza é soberana”. Mesmo num programa esportivo, em que uma das atrações era uma competição de surfe entre equipes formadas por profissionais e amadores, um jovem - misto de ator e atleta - não quis participar de uma das baterias, em Fernando de Noronha, alegando que não tinha como desafiar a natureza.

O pesquisador titular do Inpe esclarece: “A natureza não toma partido. Ela é o que é e segue leis que cada vez conhecemos melhor. Nunca antes a Terra esteve tão ameaçada pela poluição industrial, queimadas, desmatamento etc., que produzem GEE. Em resposta temos o aquecimento global e as consequentes mudanças ambientais globais. O que devemos fazer é dar continuidade aos estudos científicos para melhor entendimento do fenômeno e suas consequências, bem como traçar estratégias de controle de emissões, além de ações de adaptação e mitigação”.

Se no País e no mundo, a comunidade científica leva a sério a questão, o que caberia a toda e qualquer pessoa fazer para ajudar a encontrar o equilíbrio do clima? Carlos Nobre não se faz de rogado e recomenda, não sem antes colocar suas premissas:

“As mudanças climáticas antropogênicas estão associadas a atividades poluentes, como queima de combustíveis fósseis, queimadas, desmatamentos, agricultura, que emitem GEE. Precisamos mudar valores culturais e de consumo para reduzir

essas emissões. A melhor maneira de diminuir os desmatamentos, por exemplo, é o consumidor de produtos da Amazônia e dos cerrados (principalmente carne, madeira e soja) exigir certificações de origem que demonstrem que esses produtos não pro-

vêm de desmatamentos ilegais. As grandes empresas e setores que mais emitem GEE vão rapidamente mudar seus padrões de emissões quando as pessoas não quiserem mais consumir energia ou produtos com um padrão alto de emissões”.

 

“Não há como fixar uma data-marco”

Em que exato momento o clima começou a desandar, ou quando é possível garantir que a humanidade vivia numa situação ideal, é algo que foge à pesquisa científica mais rigorosa.

Carlos Nobre, além de pesquisador titular do Inpe, ocupa a secretaria-executiva da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas (Rede Clima) e a coordenação-executiva do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais.

Ele entende que “não dá para estimar uma data-marco de início das mudanças climáticas. Cabe esclarecer também que não faz sentido falar de aquecimento global na escala de um ano para outro (ou considerando períodos de poucos anos) porque o clima apresenta significativas variações naturais numa escala menor de tempo, como eventos do fenômeno El Niño ou La Niña. A comparação deve ser feita na escala de muitas décadas”.

“Também não faz muito sentido apontar uma situação ideal, pois a variabilidade climática é também característica do comportamento natural do planeta. O homo sapiens sempre modificou o ambiente a seu redor. Todavia, as modificações tornaram-se muito significativas após a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, quando as atividades humanas passaram a lançar grande quantidade de CO2 na atmosfera, quantidade esta maior do que a atmosfera conseguia eliminar. Após a Segunda Guerra Mundial, as emissões passaram a crescer muito rapidamente.”

Carlos Nobre lamenta que a Conferência do Clima (COP 15) em Copenhague tenha frustrado as expectativas (leia mais na página 38), mas ressalta que no campo científico o Brasil está bem avançado, a exemplo do trabalho desenvolvido pelo Inpe, que reúne pessoal altamente capacitado de instituições renomadas (ver quadro “Por dentro do Inpe”).

 

 

Mitigação + adaptação

Uma palavra que tem sido muito empregada em estudos e alertas, oficiais ou não, é mitigar. A impressão que fica é a de que a causa ecológica estaria perdida e que, daqui para a frente, o que se pode fazer soa como quebra-galho, para tornar o planeta o menos insustentável possível.

O cientista foge à provocação do jornalista e afirma: “Não se pode mais dissociar os temas mitigação e adaptação da discussão sobre mudanças climáticas globais. É imperativo também que se busque desenvolver adaptações de todas as atividades às mudanças climáticas, pois estas são inevitáveis até um certo grau”.

 

Trágica regularidade

O jornalista Antônio Marmo Cardoso, com fortes raízes no Vale do Paraíba, credita “toda essa chuvarada não a mudanças climáticas como as que se discutem hoje, aquecimento global etc., mas ao fenômeno secular e previsível que é o El Niño”. Marmo se recorda de trabalho que fez em 1997, “com ajuda do Inpe”, sobre o El Niño, com o alerta de que este se repete com certa regularidade - a cada 12, 13 anos.

O jornalista discorre: “O El Niño vem do aquecimento fora do normal das águas do Pacífico, na altura do Peru, afetando todo o clima da América do Sul, e o que estamos vendo agora se deu em 97 também... Já os tornados em Santa Catarina, Paraná, isso é coisa nova”.

O mais grave, ressalta, é que “ainda não criamos uma ‘cultura de defesa’ contra desastres, nem de prevenção”. Marmo lembra que em 1997 São Luiz também sofreu com as chuvas - “com intensidade muito menor - e só aí decidiu criar o corpo de Defesa Civil. Muitas cidades ainda não têm sua Defesa Civil”.

“No momento a cidade começa a retomar o dia-a-dia, dentro da normalidade possível. Algum comércio volta a funcionar. Agora não é questão tanto de doações e sim de ajuda técnica, de gente que entenda de reconstrução, de recuperação de patrimônio, até porque o Haiti tomou as atenções para doações, em dimensões muito mais trágicas”, afirma o jornalista.

Marmo reconhece que especialistas do Iphan já desenvolvem seus trabalhos em São Luiz e sugere: “É bom relembrar a história de Goiás Velho, terra de Cora Coralina, atingida por tragédia semelhante em 2001, que conseguiu reconstruir tudo como antes”. O mesmo, espera, deve ser feito agora em São Luiz do Paraitinga, que merece toda atenção por seu valor histórico.

Reminiscências como essa, de quem acompanhou de perto o que aconteceu recentemente em cidade histórica, nos devem levar a ser mais respeitosos com a força da natureza e a fragilidade humana, para não termos de lamentar, a cada novo desastre, como o imortal poeta Carlos Drummond de Andrade, ao revelar seu inconformismo cidadão com a destruição do Salto de Sete Quedas, em 1982, para viabilizar a construção da Usina de Itaipu. E olha que os tempos eram outros: “Sete quedas por nós passaram,/e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,/e todas sete foram mortas,/e todas sete somem no ar,/sete fantasmas, sete crimes/dos vivos golpeando a vida/que nunca mais renascerá”.

 

Por dentro do CPTEC *

O Grupo de Pesquisa em Mudanças Climáticas (GPMC) do Inpe tem:

entre seus pesquisadores, especialistas da Universidade de São Paulo (www.iag.usp.br) e da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (www.fbds.org.br);

colaboradores do governo federal, da Embrapa, Inmet, Fiocruz, Ana, Aneel, ONS, Coppe-UFRJ.

Além de centros estaduais de meteorologia, universidades, o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) e a Sociedade Civil Organizada;

há ainda o trabalho conjunto com o Programa Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil do Ministério da Ciência e Tecnologia, a Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente, a Rede Clima e o Programa de Mudanças Climáticas Globais da Fapesp, assim como com programas nacionais de alguns países da América do Sul.

 

* Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos

Fonte: Inpe

 

 

 


 

 

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