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O Arcebispo verde.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

 

Dom Moacyr minimiza choque cultural, sobrevive a acidentes e avisa: a Amazônia tem futuro; basta entender o povo.

A máxima popular: “Vá se queixar ao Bispo” é mais verdadeira do que se possa imaginar. Prova disso está na atuação do Arcebispo Dom Moacyr Grecchi, de Porto Velho (RO), conhecido não apenas por ouvir, mas por falar pelo amazônida. É uma autoridade com muita história. Primeiro presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), durante 8 anos; ocupante de cargos importantes na direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre eles a Comissão Espiscopal Nacional (CEP), órgão coordenador de toda a Conferência, durante 4 anos; e da Comissão Episcopal para a Amazônia há cerca de 6 anos; um dos três em atividade no País a participar das três principais conferências episcopais latino-americnas – Puebla, Porto Rico e Aparecida.

Escolhido pela Revista Neo Mondo para ser o personagem desta edição especial, Dom Moacyr reluta – “com a idade a gente vai tendo preguiça de falar” -, e depois nos prestigia com sua entrevista. Abençoada entrevista!

Dom Moacyr é quem podemos chamar de arcebispo verde, tais a sua identificação e compromisso com a Amazônia. Nascido no litoral catarinense, aprendeu a amar as terras amazônicas, onde está há quase quatro décadas. “Fui recebido muito bem. O povo me manifestava confiança, carinho, apoio. Pouco a pouco comecei a conhecer e amar esta terra e este povo com suas belíssimas qualidades humanas e os defeitos que todo mundo tem. O Acre e Rondônia tornaram-se minha terra e extensão de minha família”. Debilitado fisicamente, em conseqüência do último acidente automobilístico sofrido, o arcebispo conserva, aos 72 anos, a clareza e a sabedoria necessárias para assumir o papel de porta-voz dos oprimidos da região contra a devastação das matas, descaso com índios e outros problemas nacionais. Tem a voz mansa, mas firme, e avisa: “A Amazônia tem futuro; basta entender o povo”.

DA SACRISTIA PARA A FLORESTA

Ainda bispo de Rio Branco (AC), teve de se submeter a escolta policial de agentes federais, até quando oficiava cerimônias religiosas. Constrangedora, a situação não durou para ele mais do que cinco meses. Decidiu dispensar a proteção e se tornou amigo dos policiais. Nem as ameaças o fazem perder o senso de humor: “Se alguém quiser me matar, é fácil: sou grande e distraído”.

Os dois acidentes que o vitimaram, Dom Moacyr os atribui a barberagens. E nem por isso deixa de fazer as suas viagens, mesmo em estradas ruins, a lugares difíceis e distantes. Faz parte da missão pastoral percorrer esses caminhos. O arcebispo reconhece que não tem competência técnica em certos assuntos, mas autoridade moral não lhe falta, além da eclesiástica.

Explica os ingredientes da sua guinada da sacristia para a floresta: “A confiança dos pobres no bispo em situações de injustiça e a persistência nesta confiança. A descoberta de que os ricos, autoridades e sulistas compradores de terra me enganavam e, para isso, até usavam de meu pouco conhecimento da população local e de meu relativo preconceito quanto ao povo da região. A descoberta pessoal, direta, de que o povo não mentia nem exagerava quando falava do que sofria da parte dos `paulistas` com total conivência das autoridades. Atrás de tudo isso eu vejo, agora, a mão de Deus tentando me converter. Na presidência da CPT, durante a ditadura militar, aprendi muitas coisa também” – revelou.

SEM ACOMODAÇÃO

A receita do arcebispo pode ser prescrita para quem almeje desenvolver equilibradamente aquela vasta região: “Basta entender o povo”.

Porto Velho, em certo aspecto, não difere muito das badaladas capitais dos grandes centros urbanos quando o assunto é miséria. Lá também a pobreza é mais vista na periferia, e os motivos de preocupação do arcebispo não param por aí. Rondônia saltou de 80 mil para 1,4 milhão de habitantes nos últimos 30 anos. A capital do Estado vai dobrar sua população, lembra. “Hoje o atendimento médico, as escolas, a segurança, a infra-estrutura de água encanada, rede de esgotos, enfim, tudo aqui é extremamente precário”, diz.

É preciso dar dignidade a tanta gente, assim como ver a melhor maneira de resolver questões polêmicas de desenvolvimento. Dom Moacyr distingue a Amazônia Legal da restrita à bacia amazônica, com base nos seus 38 anos na região. “Sempre fomos tratados como colônia: borracha para os outros, ouro para os outros, terra para outros, madeira para os outros, boi para os outros, soja para os outros, energia para os outros…Nada se faz aqui em vista da Amazônia em primeiro lugar. A energia do Rio Madeira, por exemplo, é toda em vista do Sul”, constata. E aponta como saída o alerta, recém-saído do forno, do Debate sobre Políticas Públicas e o Futuro da Amazônia, Documento-Guia da CNBB: “As relações entre o Estado Nacional e a Sociedade Brasileira configuram-se até agora como análogas às relações de dependência entre colônia e metrópole. Em consonância com este modelo, a Amazônia está tão-somente a serviço dos interesses nacionais e não dispõe de condições básicas de se desenvolver a partir de seu dinamismo próprio e de se constituir como macro região mais plenamente integrada”.

JUSTIÇA SURDA

Sobre o Plano Amazônia Sustentável (PAS), o arcebispo pensa que, em si, ele é bom. E, de novo, não entra no mérito técnico do conteúdo. Mas alfineta: “Aqui, o projeto é sustentável ou não serve. O problema é controlar, cobrar, convencer, exigir. A justiça, como está, não responde às necessidades e muitas vezes favorece os fortes, que têm muitos e `bons` advogados. O Incra não funciona a contento e não se entende com o Ibama, a Polícia Florestal é pequena. Em geral, os órgãos ligados à terra não se entendem”.

O incansável arcebispo verde procura, em benefício da gente que nele confia, estar sempre em contato com autoridades. Ele cita ministros, notadamente do Meio Ambiente, ainda na gestão anterior, para conhecer as verdadeiras intenções e projetos do governo; Ministério Público Federal e Estadual, em casos de conflitos, de violência dos grileiros, madeireiros, prisões arbitrárias; Incra local e nacional; Ibama; órgãos ligados à Justiça e Direitos Humanos, mediante a Comissão e Justiça e Paz. Dom Moacyr sintetiza: “Quase tudo nessas regiões acaba na casa do bispo”.

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