O déficit da educação brasileira.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

Professor José Tadeu Jorge, reitor da Unicamp – considerada uma das melhores universidades do mundo – faz uma análise da educação brasileira.

Num momento de tantos questionamentos sobre a qualidade do ensino público brasileiro, algumas universidades federais se destacam no cenário mundial como uma das melhores do mundo. É o caso da Unicamp, que reúne um elenco com grandes nomes da pesquisa e do conhecimento cientifico nacional. No comando dessa equipe, o reitor, Professor Doutor, José Tadeu Jorge, mostra à Neo Mondo que é possível sim, oferecer educação e qualidade no país. A receita é simples, segundo ele, mas a vontade política e os investimentos são imprescindíveis.

Neo Mondo: Como está a educação no Brasil hoje?

Reitor:
Temos no processo educacional sérios problemas. No sistema público, a educação infantil (creche e pré-escola) ainda tem um grande déficit de vagas a ser resolvido. No Fundamental, houve um esforço do governo para inserir as crianças na escola, o que promoveu avanços quantitativos, mas não houve uma preocupação nem investimentos em qualidade desse ensino, o que gerou outro tipo de déficit. O mesmo esforço de inserção não se deu ainda no nível médio e técnico, o que, mais uma vez, gera uma lacuna importante na formação educacional da população. Já no nível universitário público, temos qualidade, mas não quantidade de vagas suficiente, o que dificulta o acesso à maioria dos brasileiros. No Brasil, 75% das universidades são particulares contra 25% de vagas públicas. Ainda assim, se considerarmos as universidades particulares, veremos que a região Nordeste tem um déficit crítico por vagas de nível superior, enquanto que, no estado de São Paulo, a oferta é maior que a demanda.

Neo Mondo:
Não é incoerente a diferença de qualidade do ensino público nos níveis fundamental, médio (considerado com baixa qualidade) e superior (de alta qualidade)?

Reitor:
Sim, é incoerente, mas a questão da quantidade de vagas em cada um desses níveis também é muito diferente. Isso não justifica, mas é um dos fatores que precisam ser considerados na análise. Um ensino de qualidade está baseado em três pilares:
-Infra-estrutura física, constituído pelas instalações, recursos educacionais, equipamentos, biblioteca, recursos audiovisuais, etc.
– Projeto Pedagógico, que deve ser consistente e adequado a cada região onde está inserido.
– Professores qualificados: os profissionais que atuam desde o planejamento até a sala de aula precisam ser capacitados e atualizados para a função que exercem. As universidades federais são bons exemplos, pois os professores são doutores e pós-doutores.
No Brasil, no ensino público fundamental e médio, há uma diversidade de condições muito grandes, conforme a região. Há casos com deficiência de estrutura, outros de produção de conteúdo ou de suporte. Por exemplo, o letramento exige aula e leitura para a consolidação do hábito. Sem uma biblioteca com conteúdo adequado a cada estágio, apropriado a cada idade, a estrutura já está falha. Da mesma forma que uma escola ruindo ou profissionais não preparados

Neo Mondo:
O senhor acredita que solucionar a questão da qualidade de ensino no país é algo difícil ou complexo de ser realizado?

Reitor:
Não é difícil nem complexo. Com certeza, não será rápido, pois deverá ser um processo de melhoria, como, por exemplo, a qualificação dos profissionais que atuam nessa área, e isso requer algum tempo. Serão necessários investimentos e vontade política de realizar essa reforma, considerando os três pilares já citados. Sem eles, não há melhorias. Enquanto universidade, digo que somos os maiores interessados em obter qualidade nos níveis fundamental e médio, pois só assim receberemos nas universidades alunos cada vez mais preparados, que, por sua vez, exigirão cada vez mais melhores professores e conteúdos.

Neo Mondo: Como a Unicamp mantém seu nível de qualidade?

Reitor:
São necessários dois componentes: a pesquisa, que propicia um ambiente na ponta do conhecimento, colaborando para a qualificação do ensino e para a formação de bons profissionais. Esse clima de inovação é motivador para os alunos. O outro é o relacionamento com a sociedade (empresas, governo e comunidade). É nessa relação, hoje priorizada na Unicamp, que a universidade coloca o aluno em contato direto com a realidade nacional. Ele pode detectar e questionar dúvidas de forma prematura. Desse modo, antes de sair da universidade, ele já pode nivelar seus conhecimentos e pesquisas com as necessidades reais, o que obriga também os professores a se manterem alinhados e atualizados.

Neo Mondo:
De que modo o desenvolvimento de um país está relacionado à qualidade da educação?

Reitor:
Está totalmente relacionado à educação. Não se discute quanto a isso, é um fato. Não há país desenvolvido sem uma base consistente em educação. Se analisarmos a história das nações desenvolvidas, verificaremos que essa condição só foi alcançada quando investiram forte em educação: em estrutura, em projeto pedagógico e em professores qualificados.

Posts Relacionados

Deixe um Comentário