O poncho preto

Contei antes sobre a simpaticíssima impressão que tivemos do casal de comerciantes que nos atendeu em Pelotas

Mas havia um, um só, um único, o último de toda a loja, que estava exposto na vitrine, e que eu achei lindo logo que vi. Era vermelho com uns pequenos quadriculados pretos em todo o manto, as bordas adornadas por uma espécie de mosaico grego, e umas franjas suaves fazendo o arremate. Infelizmente não vinha com echarpe embutida. Uma pena. Em compensação, era leve, feito de uma lãzinha fina mas honesta e, afinal, não era muito caro.

A Giovanna adora vermelho. O argumento da inadequação ao nosso clima, dessa vez, não tinha muito cabimento. E o preço era, na verdade, bem razoável em comparação a todos os outros que tínhamos visto naquela e em outras diversas lojas. Eu pensei: é esse! E não tive mais dúvida nenhuma quando ela vestiu o poncho e foi-se olhar no espelho: uma prenda perfeita! Ela vai levar… – concluí comigo. Ora, nem tudo nessa vida é assim tão previsível e fácil de entender: “É bonito, mas não é bem o que eu queria…” ? disse ela. E não quis mesmo. Àquela altura, eu por mim estava mais era querendo voltar para o hotel depois de um dia inteiro camelando pela cidade atrás de um poncho.

Assim, nem insisti muito para que ela ficasse com aquele (mas, no fundo, eu tinha certeza de que mais tarde ela haveria de se arrepender…). Já nos despedíamos e nos dispúnhamos a transpor o limiar da loja, quando dona Eva, no último instante, fez a oferta, com amabilidade indescritível: “Se não levares a mal, tenho este
aqui com um defeitinho de nada que te faço pela metade do preço”. A Giovanna, além de não levar nem um pouco a mal, levou foi de muito bom grado o poncho
assim oferecido (que, por sinal, era igualzinho ao vermelho, só que preto com os detalhes em branco). E ficou assim visivelmente satisfeita, até porque o defeito era mesmo coisa à-toa: umas descosturinhas sem mais na franja, cujas condições para reparo a mesma dona Eva com a gentileza de costume prestativamente providenciou: “Tu tens aqui agulha e linha, não te dá trabalho nenhum”.

Por fim, de improviso, também eu me animei a comprar qualquer coisa. O que eu queria de verdade era um sobretudo legítimo do Sul. Mas não tivera tanta sorte. Em todas as lojas que percorremos atrás do poncho, não havia nenhum sobretudo tão conveniente como aquele poncho preto, isto é, leve, de boa qualidade e – sobretudo – em promoção realmente irresistível. Conclusão: tive que resistir. Assim, escolhi um chaveiro de que gostei – e precisava havia tempo –, verde, amarelo e vermelho, cheio de ganchos para as chaves. Coisa fina (e legitimamente gaúcha até onde se podia notar). Acabamos ainda ganhando de brinde uns broches bem delicados.

O meu, abertamente revolucionário, com o brasão da bandeira farroupilha; o da Giovanna, já mais conciliador, com a bandeira gaúcha e a brasileira entrelaçadas.
Fizemos questão de sair da loja cada um com o seu cravado no peito. Afinal, era setembro, mês da Independência, quando o clima patriótico no Sul é deveras
contagiante. Seu Sinval e dona Eva, os gentis proprietários, nos acompanharam até a porta da loja: “Vão com Deus, bah! E passem amanhã, se puderem, para experimentar um chimarrão”. Ficamos com uma vontade louca de poder.

* Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. E-mail: marciothamos@uol.com.br

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