CIRO Cultura 

Papai Noel mandou-me à Pérsia.

POR – MÁRCIO THAMOS ESPECIAL PARA NEO MONDO

Absolutamente sem graça porque perdemos assim um pouco de nós mesmos e nos encontramos num mundo cada vez menos familiar, onde pudéssemos reconhecer nossa própria identidade. Aliás, essa vertigem da mudança é uma das grandes aflições que nos impõe o mundo contemporâneo, e que, de vez em quando, nos dá aquela vontade de ir embora pra Pasárgada…

Essa antiga cidade do Oriente Médio, no século VI a. C., tornou-se a capital do império Persa, fundado por Ciro, o Grande, que se fizera o rei dos reis de toda a Ásia ocidental. Desenvolveu-se aí o culto de mitras, o espírito da luz divina, que os persas adoravam. É esse um deus que se distingue, sobretudo, por sua pureza moral.

A doutrina de mitras sobreviveu à queda do império Persa, quando, no IV século a. C., Alexandre, o Grande, conquistou o oriente. E continuou a fazer adeptos pelos séculos seguintes, chegando a Roma, no final da república, isto é, por volta do século I A. c. o deus dos persas permaneceu aí pouco conhecido por bom tempo, até que, principalmente depois do século ii de nossa era, já no período de decadência do império romano, seu culto caiu na preferência dos soldados das legiões. Desde então, assimilado ao deus sol, mitras teve sua doutrina largamente difundida por todo o mediterrâneo. Quanto às cerimônias, os iniciados deveriam guardar segredo.

O Mitraísmo pretendia explicar o sentido da vida através da queda da alma, literalmente, do céu à terra, passando por estágios iniciatórios pelos planetas. Assegurava-lhe, contudo, uma redenção final. O mito conta a luta dos deuses do céu contra os deuses das trevas, de cujo desfecho depende o destino dos homens. Os espíritos malignos querem espalhar a miséria pela terra, mas Mitras ajuda os deuses do céu a salvar a humanidade. Após lutar e sofrer pelos homens, mitras sobe aos céus numa carruagem de fogo. Mas voltará ainda uma vez à terra para garantir a imortalidade aos bons, enquanto um fogo devorador vindo do céu acabará com todo o mal.

Mas e o Natal, o que tem a ver com o deus dos persas? Bem, o natal deve à Mitras boa parte de sua origem. Em meio aos festejos gerais de fim de ano, na Roma imperial, comemorava-se “o nascimento do sol invicto” (natalis solis invicti), em 25 de dezembro. A data marcava o solstício de inverno, período em que o sol, depois de se afastar ao máximo do equador, parece estacionário durante alguns dias, antes de começar sua reaproximação. O dia 25, segundo os cálculos dos astrônomos, seria o dia em que o sol retomava seu curso, voltando, então, a se fortalecer e preparando assim um novo período mais propício à vida, pois traria consigo a estação amena da primavera. 25 de dezembro era, portanto, festejado como o dia do nascimento de Mitras. Foi só após a cristianização do império romano que a data passou a ser celebrada como o nascimento de Jesus. A rivalidade dos cultos e certas coincidências entre as doutrinas concorreram naturalmente para a fixação dessa data no calendário cristão.

Por isso, ir-se embora pra Pasárgada, num certo sentido, pode significar reencontrar-se com o espírito do Natal…


* Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Lingüística da FCL-UNESP/CAr. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica.

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