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Respeito é bom, e criança gosta.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

A questão de como disciplinar uma criança é um antigo assunto que sempre volta à tona diante de notícias de violência contra crianças, que parecem estar se tornando cada vez mais comuns na mídia.Também não é raro a “justificativa” de que se trata de um ato disciplinar. Todo pai e mãe têm o dever de orientar, estabelecer os limites, desenvolver os valores que nortearão a vida de seus ?lhos. Mas educação nunca será compatível com violência, crueldade ou covardia. Ela é um ato de amor.

“Não existe palmada light. De qualquer forma, bater é um desrespeito à criança. Se batermos em adulto, é agressão; em cachorro, crueldade. Em criança, é educação?”. Quem diz é a psicóloga Maria Amélia de Azevedo, do Lacri-USP.

O Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD – Crami, com vinte anos de atuação e pioneiro nesse tipo de tratamento, acredita que a solução é tratar quem agride e dar acompanhamento a quem é vítima de agressão e à sua família. “Viver sem violência – um direito que é meu, seu e de todas as crianças e adolescentes” – enuncia a Cartilha do Crami. Lígia Caravieri, coordenadora do Centro, é incisiva nesses dois aspectos e lembra que crianças e adolescentes sofrem maus-tratos todos os dias, cometidos por quem mais deveria cuidar deles: pais, mães, avós, tios.

“Uma palmada já é traumatizante para uma criança. Embora ela facilmente esqueça a dor e volte a brincar, aquela cena ?cará gravada ao ponto de, se um amiguinho na escola ?zer algo que ela não queria, terá a mesma reação que os pais: bater. Pois aprendeu assim.” – disse a coordenadora.

Em 2007, 216 famílias foram encaminhadas aos núcleos de atendimento do Crami de Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema, numa pequena mostra da dimensão real, normalmente oculta, e que pode atingir números assustadores. Dados do Unicef corroboram uma preocupante realidade: de 18 mil crianças espancadas diariamente no Brasil, apenas mil casos aparecem nos registros. No total, o Crami atendeu 446 famílias, com quase 11 mil pessoas assistidas apenas em 2007.

Segundo Lígia, em todos os casos já atendidos, até os mais graves, as agressões iniciaram com um tapa, com a intenção de ensinar o que não se pode fazer. “Acontece que os pais, depois de um dia estressante de trabalho, não têm paciência de dialogar com a criança. Se conversou uma ou duas vezes com ela, na terceira vez eles extravasam e partem para a agressão. Isso mostra que, a criança não precisa apanhar, mas o adulto precisa bater” – destaca a coordenadora.

Faces da violência

A violência contra crianças e adolescentes não se restringe a maus-tratos físicos. Dos casos atendidos pelo Crami, 57% se referem a violência psicológica, 17% são de ordem sexual, 13% física, e outros 13% caracterizam negligência e abandono. O que, por si só, serve de alerta: a sociedade brasileira tem muito a aprender – e apreender – ainda sobre os cuidados com as nossas crianças.

“O fato é que esse tipo de agressão é cultural e aceita. Os pais aprenderam que para educar é preciso bater, daí a atitude passa pelo inconsciente, tornado-se natural. Muitas vezes até a própria criança acredita que seja merecedora da agressão, pois essa cultura também já está embutida em sua mente” – destaca Lígia Caravieri.

Parceiros do Crami

Parceiros especiais do Crami são os Conselhos Tutelares da região – que lhe encaminham os casos -, mas há outros igualmente importantes. Juntos, esses organismos podem fazer muito para orientar, atender nos aspectos psicológico e jurídico, encaminhar para uma assistência social e até médica.

Fundamental, porém, é que a sociedade participe por meio de ações concretas, algumas simples e outras nem tanto. Um bom começo é inteirar-se dos direitos da criança e do adolescente (o Estatuto da Criança e do Adolescente está disponível na internet: www2.camara.gov.br/publicacoes/internet/publicacoes/estatutocrianca.pdf), ?car atento ao menor sinal de que algo não vai bem na própria casa ou na de algum vizinho. E não se deixar levar pelo mínimo vacilo: “violência doméstica e exploração sexual ocorrem em todas as classes sociais, e não existe um per?l único da pessoa que a comete”, ensina a Cartilha da entidade.

Para tanto, o Crami também tem se dedicado a prevenção desses casos, oferecendo palestras e seminários aos pro?ssionais do ensino e da saúde, alertando-os sobre a importância de estar atento a alguns sinais de violência. “O médico ou enfermeiro podem observar se a criança é levada com certa freqüência ao hospital, sempre com hematomas, o que é um sinal de alerta. O mesmo serve para professores que devem observar e buscar soluções na ocorrência desses casos junto à família ou, em casos extremos, ao Conselho Tutelar ou a Vara de Infância e Juventude de seu município” – ressalta Lígia.

A impressão que ?ca é que evoluímos, em certos aspectos, a passos de tartaruga manca. O conceito de família, por exemplo, precisa ser mais bem-entendido porque muita coisa mudou. Existe hoje a ?gura do segundo marido da mãe, da terceira mulher do pai, dos ?lhos que cada um deles já trouxe de outras relações e dos novos irmãos desses relacionamentos. É o mundo moderno, bom ou mau, é uma realidade a se considerar. Mas como ?cam os ?lhos dessas e nessas relações? Não é coerente avançar tanto, de um lado, e de outro continuar a adotar o que faziam, de pior, nossos avós ou bisavós.

Ao primeiro sinal de traquinagem ou de alegado desrespeito – ou pior ainda: até mesmo sem pretexto, há crianças que sofrem violência na própria casa -, lá vêm o tapa, a chinelada, o ?o de ferro, o beliscão, a queimadura, a surra… e outras tragédias muito piores, divulgadas diariamente na mídia.

(Artigo 5o. do Estatuto da Criança e do Adolescente)

“Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”

(Do Direito à Liberdade, Estatuto da Criança e do Adolescente)

“Ir e vir, estar nos logradouros públicos e espaços comunitários;opinião e expressão; brincar, praticar esportes e divertir-se; participar da vida familiar e comunitária,sem discriminação”

(Do dever dos adultos, Estatuto da Criança e do Adolescente)

“Velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” .

Quer ajudar?

Como notificar os casos de violência?

Procure o Conselho Tutelar de seu município ou ligue para o Disque 100 – número nacional do Disque Denúncia.

É preciso se identificar?

Não. Qualquer noti?cação de casos de violência é sigilosa.

O que acontece com os agressores e com as vítimas após a denúncia?

Eles são encaminhados para os Centros de Atendimento, onde passarão por avaliação psicológica e tratamento adequado para cada um dos casos. No Crami, além de agressores e vítimas, os outros membros da família também passam por orientação profissional.

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