seca Meio Ambiente 

São Paulo vive sua maior crise hídrica dos últimos 84 anos.

Dos 43,6 milhões de habitantes do estado de São Paulo, 9,8 milhões, ou mais de 22%, recebem água do reservatório do Sistema Cantareira. Em maio, sua capacidade chegou a apenas um dígito pela primeira vez na história: 9,2%, segundo a Companhia de Saneamento Básico (Sabesp). Um ano antes, esse índice era de 60%.

A taxa em constante declínio passou a ser acompanhada diariamente pela população, como em uma contagem regressiva. Chegando a zero, como será o abastecimento? O que houve para o estado mais rico do Brasil perder o controle sobre um dos seus principais reservatórios em um período tão curto?

De fato, choveu menos no sistema formado principalmente pelos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A média histórica de chuvas é de 259 mm em janeiro e, este ano, foram registrados 87 mm. Nunca choveu tão pouco desde o início da medição, há 84 anos. 

Especialistas afirmam, contudo, que a chuva não pode ser a única culpada. Outros países passam por estiagens e seus cidadãos não ficam sem água potável. “O fenômeno meteorológico ocorrido faz parte dos ciclos naturais de variação da frequência e intensidade das precipitações que não podem ser ignorados nos projetos dos sistemas de abastecimento de água, que devem ter capacidade para atender os usuários”, divulgou em seu blog o engenheiro e consultor em saneamento e meio ambiente Julio Cerqueira Cesar Neto, um dos maiores nomes na área. “A seca no Cantareira se deve à ausência de investimentos pelo governo estadual (Sabesp) em novos mananciais para a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) após a conclusão do próprio Sistema Cantareira, há 30 anos, período no qual a população aumentou de 12 milhões para 22 milhões de habitantes”, completou.

Pelo ralo

O Brasil é o quarto maior consumidor de água no mundo, atrás da China, Índia e Estados Unidos. Pode-se dizer que o País tem posição de vantagem – concentra 12% da água doce do globo, mas apenas 3% da população mundial. Porém, boa parte dessa água está em regiões remotas, e áreas urbanizadas são consideradas propensas a enfrentar escassez e exigem mais planejamento e ação, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA). Ainda que haja bacias em volta da capital, a água tem péssima qualidade devido ao esgoto não tratado e lançado diretamente em rios próximos. Esses rios também correm para o interior, espalhando poluentes. A saída é buscar o bem em regiões ainda mais distantes.

Técnicos estimam que entre 20% e 25% de toda a água produzida no estado não chega a ser consumida por ninguém: simplesmente se perde em vazamentos nas tubulações. A quantidade parece razoável quando comparada à média brasileira de 40%, mas está longe das de outros países: 10% na Europa e Estados Unidos e 8% no Japão.

Um levantamento da Sabesp mostrou que o sistema de abastecimento tem mais de trinta anos de uso. Para atualizar essa rede, é preciso investimento, os custos podem se tornar incalculáveis quando se considera a interrupção de circulação e a quebra das vias. Trazer água de cada vez mais longe pode ser o meio mais barato de prover abastecimento, mas é também o mais atrasado e, agora, o menos possível.

Assim, o primeiro passo para economizar é evitar o desperdício e reeducar a população brasileira acostumada à abundância. É necessário trocar equipamentos hidráulicos antigos: os vasos sanitários, por exemplo, foram projetados para eliminar 20 litros de água por descarga; em 1982, uma norma passou a recomendar seis litros.

Em larga escala, o reuso da água é a melhor solução para a crise. É possível tratar a água usada no chuveiro ou na máquina de lavar para usar em carros e quintais. Pode-se também purificar o que vai para o esgoto; apesar de soar anti-higiênica, a técnica funciona e leva água potável para as torneiras. Os 3 milhões de habitantes de Orange County, na Califórnia (EUA), bebem dessa água há décadas, além dos turistas que a visitam e que não são poucos: a cidade abriga a Disneylândia.

Volume morto

Em março, a Sabesp iniciou obras de R$ 80 milhões para a captação do “volume morto”, água que fica no fundo do reservatório, abaixo dos tubos que puxam e mandam água para as estações; serão 200 bilhões de litros retirados dos 400 bilhões existentes.

Ele começou a ser usado em 15 de maio, quando o nível do sistema pulou de 8,2% para 26,7%. Porém, chegou a 25,7% no dia 19, mesmo depois de ter chovido no sistema. Técnicos afirmaram que a chuva não recuperaria a água porque o solo, totalmente seco, a absorveria no primeiro momento. Até o chão tem sede.

Por Lilian Mallagoli

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