Valores humanos na educação. A educação com a missão de formar o Ser.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

Uma relevante questão vem sendo levantada por educadores: a urgente necessidade da inserção de valores humanos na educação. O que significa isso? Para eles, significa uma tentativa de agir diante de quadros cada vez mais assustadores de violência, de banalização da vida, de posturas antiéticas, de corrupção, de desrespeito pelo próximo e de uma seqüencia de degradações que se tornam públicas nas notícias diárias. Significa também exercer o verdadeiro sentido da educação, que é formar pessoas.

Durante uma palestra sobre o tema, ocorrida há alguns anos, o educador Ubiratan D’Ambrósio, considerado pelo célebre Paulo Freire como “um pensador da educação atual”, lançou para uma platéia formada por professores a seguinte reflexão: “Para que serve um profissional altamente qualificado e capacitado se ele utiliza seu conhecimento para o mal?” – Diante do silêncio, ele prosseguiu com a afirmação: um bom físico é capaz de descobertas importantes para a ciência como a manipulação do átomo, mas serão os seus valores que o farão desenvolver, com esse conhecimento, uma nova fonte energética que beneficiará a humanidade ou uma bomba destruidora. Outros exemplos se seguiram mostrando que a formação educacional deve preparar não apenas profissionais competentes, mas formar pessoas e inserir ao conhecimento delas valores humanos, que nortearão sua conduta.

A título de apresentação, do vasto currículo de Ubiratan D’Ambrósio, nacional e internacional, destacamos tratar-se de um doutor matemático, professor emérito da Universidade de Campinas (Unicamp), pai da etnomatemática, com mais de 200 obras, entre livros e artigos publicados, e que ainda hoje é um incansável divulgador e aplicador da educação em valores humanos. Ele explicou que isso significa voltar-se ao aprimoramento das qualidades morais, intelectuais e sociais, que englobam questões como cidadania, relacionamento com o meio ambiente e saúde e geram, como conseqüência, o comportamento ético. “Esses valores já existem nos seres humanos, mas cabe à educação estimulá-los” – disse ele.

Para D’Ambrósio, a verdadeira função de um educador é reconhecer o potencial, as tendências, as inclinações genéticas, as aptidões já existentes no aluno e aprimorar essas potencialidades. Defende ainda que o ensino deve considerar a realidade sociocultural do aluno, o ambiente em que ele vive e o conhecimento que ele traz de casa. Segundo ele, lamentavelmente, isso educação aplicada na maioria do sistema de ensino está focalizada apenas no repasse de conteúdos acadêmicos, muitas vezes, obsoletos. D’Ambrósio crê que a metodologia é algo dinâmico, onde o fundamental é ser um bom ouvinte. Cada educador é capaz de criar suas próprias técnicas de aplicar a educação em valores humanos.

Nove anos de aplicação

A empresária e pedagoga Fernanda Mesquita Berkovitz desenvolve há nove anos um trabalho de educação em valores humanos, no município de Amparo, em São Paulo, experiência que rendeu inclusive um livro sobre o tema. Seguindo os passos do pai, Luiz
França de Mesquita, idealizador do projeto, Fernanda mantém o núcleo de educação em Valores Humanos Gentil Pessoa de Mesquita, que funciona como uma escola complementar, atendendo gratuitamente crianças e adolescentes de 5 a 17 anos da área rural; adultos da comunidade em cursos técnicos e ainda treina professores em cursos básicos de valores humanos. As crianças freqüentam o espaço em horário contrário à escola e recebem ali os conceitos dessa metodologia sintetizada pelo educador indiano Sathya Sai Baba.

“Realizamos a educação do ser, que passa pela reflexão e pelo autoconhecimento. São os valores de uma pessoa que formam a estrutura do seu caráter” – informou ela. Fernanda defende que a educação não é mera transmissão de conhecimento, mas sim, a aplicação de ações diárias, que devem apresentar coerência entre pensamento, palavra e ação. “Deve haver unidade entre coração, cabeça e mãos” – sintetizou. O método aplicado no núcleo utiliza, segundo ela, a educação amorosa, através da vivência dos Valores humanos: verdade, retidão, paz, amor universal e ação correta. “Utilizamos uma técnica de aplicação dessa metodologia, que é muito simples e pode ser adotada em qualquer escola, desde os primeiros anos. O que é muito importante é que esses valores também sejam vivenciados pelos educadores. A mais eficaz educação ocorre pelo exemplo” – orientou.

O resultado desse trabalho, que já educou centenas de crianças, que hoje estão cursando faculdades ou já inseridos no mercado de trabalho (alguns voltaram ao núcleo como voluntários), se revela no entendimento que deixaram registrados em seus trabalhos e passagem pelo núcleo, como: “… nosso futuro depende da perspectiva de nosso olhar” ou ainda, “descobrimos que existe esperança na vida e um futuro melhor”.

Para Fernanda, esses depoimentos, guardados com carinho, são as melhores recompensas desse trabalho e uma demonstração de que valeu a pena acreditar e dar continuidade ao sonho do pai. “Ele possuía muita visão, compreensão de mundo e humanidade. Ele foi a grande luz destas crianças” – explicou Fernanda.

O atendimento no núcleo é mantido atualmente com recursos próprios e auxílio de voluntários. Apesar das dificuldades comuns nesses empreendimentos, o projeto irá completar 10 anos, em 2009, e estão previstos a manutenção do atendimento das crianças; a realização de cursos técnicos profissionalizante para adolescentes, já com estágios garantidos; cursos técnicos para adultos, como massagem básica e avançada e, ainda, cursos de artesanato e reciclagem; um projeto cultural; eventos, como as semanas abertas, quando recebem escolas da região para visita; atendimento médico de acupuntura e fitoterapia e ainda o lançamento de um livro e de um site sobre o trabalho realizado.

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