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Escrito por Neo Mondo | 31 de março de 2026
Amazônia em pauta: o climatologista Carlos Nobre durante evento internacional de ciência climática. Pesquisador da USP e único brasileiro no novo conselho do Vaticano, Nobre dedica mais de quarenta anos ao estudo do bioma e dos riscos de sua savanização - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em outubro de 2019, Carlos Nobre entrou pelo Portal de Bronze da Basílica de São Pedro carregando dados. Estava ali como cientista convidado do Sínodo para a Amazônia convocado pelo papa Francisco, e o que apresentou ao colégio de bispos reunidos naquele outubro romano era um argumento preciso e perturbador: a floresta que abriga o maior repositório de biodiversidade terrestre do planeta estava se aproximando de um ponto de não retorno. Acima de determinados limiares de desmatamento e aquecimento, o bioma não perderia apenas árvores — perderia a capacidade de se regenerar, convertendo-se gradualmente em savana. A ciência tinha um nome para o processo: savanização. A Igreja, naquela ocasião, escutou.
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Seis anos mais tarde, o reencontro entre o climatologista brasileiro e a Santa Sé adquiriu outra dimensão. O papa Leão XIV nomeou Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, como membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, órgão que assessora o Vaticano em temas como justiça social, economia, meio ambiente e qualidade de vida. O anúncio foi publicado em edição extraordinária do Boletim da Santa Sé em 30 de março de 2026. Nobre é o único brasileiro entre os onze integrantes do grupo, formado por especialistas de diferentes áreas do conhecimento, líderes religiosos e ativistas de diferentes continentes.
A nomeação não é um gesto protocolar. É a consolidação de uma mudança estrutural na forma como uma das maiores instituições do mundo posiciona a ciência climática dentro de seus mecanismos de decisão.
Criado em 2016 pelo papa Francisco, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral foi concebido como o braço social da Cúria Romana — responsável por promover dignidade humana, direitos, justiça, paz e cuidado com a criação. Ao longo dos últimos anos, o órgão foi se tornando algo mais do que um departamento de assistência humanitária: assumiu papel estratégico na articulação de respostas a crises que ultrapassam fronteiras e exigem cooperação internacional. A entrada de um climatologista de carreira no conselho — não um teólogo com sensibilidade ecológica, mas um doutor em meteorologia pelo MIT com quatro décadas de pesquisa sobre o bioma amazônico — marca a maturidade desse processo.
O movimento tem genealogia identificável. A estratégia do Vaticano de incorporar a ciência nas discussões sobre as grandes questões globais ganhou força após a encíclica Laudato Si', publicada em 2015 pelo papa Francisco. Aquele documento foi, na avaliação de muitos analistas de política ambiental, o primeiro pronunciamento papal a engajar diretamente a literatura científica sobre mudanças climáticas — citando o IPCC, discutindo limites planetários, nomeando a perda de biodiversidade e o colapso dos ecossistemas como questões de ordem moral. A encíclica não se dirigia apenas aos católicos: falava explicitamente "a cada pessoa que habita neste planeta". No aniversário de dez anos do documento, em 2025, o papa Leão XIV voltou a defender a preservação ambiental e alertou para a necessidade de tratar o tema de forma unificada. Em julho daquele ano, declarou: "Hoje vivemos em um mundo que está queimando, tanto por causa do aquecimento global quanto dos conflitos armados."
Leão XIV — nascido Robert Francis Prevost, em Chicago, primeiro papa norte-americano da história — chegou ao pontificado em maio de 2025 com um perfil que tornava a aproximação com a ciência climática previsível. Ex-bispo de Chiclayo e cidadão peruano por adoção, amadureceu um percurso pastoral marcado pelo diálogo intercultural e pelo contato direto com comunidades rurais, indígenas e marginalizadas, frequentemente ameaçadas pela exploração mineradora ilegal, pelo desmatamento e pela exclusão sistêmica. Em novembro de 2024, durante seminário sobre clima em Roma, o então cardeal Prevost defendeu que era hora de passar "das palavras à ação" no enfrentamento da crise climática. O nome papal que escolheu foi uma referência deliberada ao papa Leão XIII, que desenvolveu o ensino social católico moderno em meio à Segunda Revolução Industrial — uma sinalização de que a Quarta Revolução Industrial e seus custos humanos e ambientais estariam no centro do seu pontificado.
A trajetória de Carlos Nobre é, por si mesma, uma história sobre o que acontece quando a ciência persiste. Engenheiro eletrônico graduado pelo ITA e doutor em meteorologia pelo MIT, Nobre dedicou mais de quarenta anos ao estudo da Amazônia, tendo construído a maior parte de sua carreira no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Foi um dos primeiros cientistas a formalizar a hipótese da savanização — a transformação gradual da floresta em ecossistema mais árido sob pressão do desmatamento e do aquecimento acumulado. Em 2007, integrou a equipe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas que recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Em 2022, tornou-se o primeiro brasileiro em mais de cem anos a ser eleito membro da Royal Society. É copresidente do Painel Científico para a Amazônia e lidera o projeto Amazônia 4.0, que propõe um modelo de desenvolvimento sustentável baseado na bioeconomia e no uso de tecnologias avançadas aliadas ao conhecimento tradicional dos povos da floresta. Foi também o primeiro brasileiro a integrar o grupo Planetary Guardians, conselho vinculado ao Vaticano que reúne cientistas para discutir soluções à crise climática e proteção de populações vulneráveis.
A progressão — do INPE ao MIT, do MIT às COPs, das COPs ao Sínodo, do Sínodo ao Dicastério — não é apenas uma biografia. É o mapa de como o conhecimento sobre a Amazônia foi migrando, décadas a fio, para os centros onde as decisões sobre o planeta são efetivamente tomadas.
Ao comentar a nomeação, Nobre disse: "A Igreja tem uma grande importância para a humanidade e, quando ela escolhe olhar para o meio ambiente, ela está olhando para as pessoas. Muitas vidas estão em risco." A declaração condensa uma questão que a ciência do clima leva décadas tentando transmitir a formuladores de política pública e líderes religiosos: que a crise ecológica não é um tema setorial, uma pauta de especialistas ou um interesse de nicho — é a condição de fundo sobre a qual todas as outras questões humanas se desenrolam. A presença de um cientista climático em um conselho que debate migrações, dignidade humana, justiça social e emergências humanitárias é, nesse sentido, menos uma concessão da Igreja à ciência do que o reconhecimento de que essas categorias são inseparáveis.
O Vaticano não tem exército, não vota em cúpulas do G20 e não assina tratados. O que possui é algo que os cientistas raramente controlam: acesso moral a 1,4 bilhão de pessoas em todos os continentes, incluindo populações da Amazônia, do Congo, do Cerrado e das periferias das megacidades do Sul Global — as mesmas que a ciência identifica como as mais vulneráveis às consequências do aquecimento. A escolha de um cientista latino-americano é, também por isso, interpretada como um sinal de que o Vaticano reconhece a centralidade geopolítica e ecológica da região nas próximas décadas.
Carlos Nobre voltou ao Portal de Bronze. Desta vez, não como convidado.
Fontes
Santa Sé, Comunicado Oficial do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, 2026 Papa Francisco, Encíclica Laudato Si' — Sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, 2015 IPCC, Quinto e Sexto Relatórios de Avaliação, 2014 e 2021 Painel Científico para a Amazônia, Assessment Report, 2021 Vatican News, O Papa Leão XIV e a Amazônia, 2025
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