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A mensagem

Escrito por Daniel Medeiros | 6 de abril de 2026

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Mensagem que atravessa séculos: entre a dor e a luz, o convite permanente à reflexão sobre o sentido da vida - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS

Nessa semana lembramos a Paixão e a Ressurreição de Cristo. Na sexta, ficamos consternados, evitamos os temas alegres, as comidas fartas, as músicas altas. No domingo, ao contrário, reunimos a família, preparamos desde cedo o almoço, abrimos algumas garrafas de vinho ou de cerveja, recebemos filhos e amigos com abraços apertados. Na segunda, a rotina reassume sua titularidade e a vida continua. Na terça já brigamos com alguém, na quinta maldizemos o mundo, e no fim da outra semana ficamos enfurnados diante da TV vendo pessoas enfurnadas dentro de uma casa fictícia maldizendo o mundo e brigando entre si.

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Afinal, qual é a mensagem da Paixão? Há uma mensagem específica ou o gesto deixou em aberto um espaço para que a nossa imaginação completasse a lacuna? Para os que creem, Jesus veio para redimir os humanos de seus pecados, entregando-se a si próprio em sacrifício: cordeiro de Deus, que tiraste os pecados do mundo. Deixou o corpo padecer diante da insanidade dos ímpios, sofreu calado as acusações sem fundamento, a pena desproporcional, a tortura, a humilhação e, enfim, a morte no alto do morro, diante de todos.

Como ficou seu Pai, vendo tudo aquilo? Mas sendo seu Pai onisciente, ele sabia de tudo antes de tudo. Então, como permitiu? E se o enviou sabendo de tudo, por quê? Essas são perguntas deixadas para nós. E a lembrança da data deveria ser a oportunidade para alguma reflexão sobre isso — ou sobre mais do que isso.

No entanto, isso não acontece na maioria dos lugares. E onde acontece, não é suficiente para lançar luz nas áreas ensombradas pela rotina do almoço contrito da sexta e da distribuição de chocolates do domingo. Olhos baixos na sexta, check! Alegria e comilança no domingo, check! E na segunda-feira, olhar o calendário esperando o próximo feriado para se esconder da vida mais uma vez.

Na Atenas decadente do fim do século V antes de Cristo, Sócrates foi às ruas para agitar seus concidadãos, dizendo-lhes que "uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida" e que, para conhecer a verdade, era preciso admitir que o que pensamos saber do mundo é insuficiente. Sócrates acreditava estar imbuído de uma missão dos deuses, que haviam lhe dito, pela boca da pitonisa do oráculo de Delfos, que ele era "a pessoa mais sábia da cidade". Depois de muito pensar naquela afirmação, Sócrates — um homem simples, de uma longa vida vivida em meio a dificuldades, guerras e algumas poucas alegrias — concluiu que ele realmente deveria ser a pessoa mais sábia da cidade porque era o único que reconhecia não saber de nada, que era um ignorante em busca de conhecimento onde quer que ele estivesse. Enquanto isso, todos à sua volta jactavam verdades sem retoques, como se o mundo não guardasse qualquer mistério. E Atenas sucumbia em meio a esse exército de espertalhões. Era preciso fazer algo, mesmo que dentro dos limites de Sócrates — um zangão tentando despertar uma mula gorda e preguiçosa. Não deu certo. Sócrates foi falsamente acusado, julgado sem provas e condenado à morte. A cidade livrou-se dele e seguiu seu caminho — com exceção dos poucos que o conheceram de perto: sua reduzida família e os jovens que o acompanhavam nas conversas na praça, como, por exemplo, Platão. Este, em particular, entendeu que as mensagens do mestre não poderiam ser esquecidas e que era preciso levar aquela derrota para um terreno no qual ela pudesse, quem sabe um dia, frutificar.

Assim também fizeram João, Lucas, Marcos e Mateus com o amigo e mestre Jesus. Seguindo a parábola que ele um dia contou para a multidão que se acotovelava para ouvi-lo na praia às margens do mar da Galileia, entenderam que a Palavra precisa ser transmitida e que um dia encontraria uma terra fértil que a acolhesse e reproduzisse.

Nessa última semana lembramos a Paixão e a Ressurreição. Para a maioria, um dia em que não se pode comer carne e outro para se refestelar de chocolate. Para alguns, uma oportunidade para pensar na mensagem — como uma voz vinda do passado, lembrando o aviso do filósofo Walter Benjamin: "pois não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?" A tarefa de ouvir e refletir é também o convite para semear, para espalhar a Palavra dos que se sacrificaram — não pelas minhas ambições ou pelos meus preconceitos, pelo meu egoísmo ou pelo meu ressentimento, mas pela alegria como um bem de todos, pela Boda de Caná, pelo pão e pelo vinho.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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Daniel Medeiros, autor do artigo "A mensagem" - Foto: Divulgação

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