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O clima mudou. A pele também

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 6 de abril de 2026

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Clima na pele: quando o ambiente muda, o corpo responde — e a ciência precisa acompanhar essa transformação - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DRA. MARCELA BARALDI

A pele é o único órgão que não mente. Ela registra o tempo que fez, o sol que bateu, o ar que entrou. E, nos últimos anos, o que ela está registrando é uma aceleração sem precedentes — não de envelhecimento individual, mas de agressão coletiva. O clima mudou. A pele também está mudando. E a dermatologia, se quiser continuar relevante, precisa mudar junto.

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Não é uma metáfora. É biologia. Quando a temperatura superficial da pele sobe, a perda de água transepidérmica — a TEWL — aumenta de forma proporcional e mensurável. Uma elevação de 7°C nessa temperatura é suficiente para dobrar essa perda. O resultado não é apenas ressecamento; é o comprometimento da barreira cutânea como sistema imunológico de primeira linha. Uma pele desidratada é uma pele porosa, vulnerável, incapaz de cumprir sua função protetora com a eficiência que deveria. E essa condição, que antes víamos associada a invernos secos ou ambientes de ar condicionado excessivo, tornou-se o estado crônico de populações inteiras expostas ao calor persistente das cidades brasileiras em pleno Antropoceno.

A radiação ultravioleta sempre foi o principal fator extrínseco de envelhecimento cutâneo — e continua sendo, respondendo por cerca de 90% do dano visível na pele ao longo da vida. Mas o que as mudanças climáticas fazem é potencializar esse dano em camadas. O calor amplifica o efeito da radiação UV. A poluição atmosférica, com suas partículas finas e compostos orgânicos voláteis, induz estresse oxidativo e inflamação crônica que favorecem o surgimento de dermatite atópica, psoríase e acne. As enchentes, que se tornaram eventos recorrentes em diversas regiões do país, trazem consigo surtos de infecções fúngicas e bacterianas — entre elas, as dermatites por Pseudomonas aeruginosa, diagnóstico familiar a todo dermatologista que acompanha populações em situação de vulnerabilidade. Não são casos isolados. São padrões.

O que me interessa — e o que cada vez mais orienta minha prática clínica — é entender que esses fenômenos não são externalidades do sistema de saúde da pele. Eles são o sistema. A dermatologia que ignora o endereço do paciente, o índice de qualidade do ar da cidade onde ele vive, a altitude, a umidade média da região, está trabalhando com metade da informação. O diagnóstico pode estar correto; o contexto, ignorado.

É nessa lacuna que surge o que o campo vem chamando de dermatologia adaptativa — ou, no mercado, de climate-adaptive beauty. A ideia central não é nova para quem pensa em medicina integrativa, mas sua aplicação à cosmetologia e à farmacologia dérmica é recente. Em vez de combater sintomas de forma isolada, a proposta é fortalecer a resiliência da pele como sistema: sua capacidade de se reparar, de modular inflamação, de manter a barreira funcional sob condições adversas. O foco desloca do anti-idade para a longevidade funcional. É uma diferença que parece semântica e não é.

A biotecnologia está respondendo a essa demanda com velocidade impressionante. Ativos termo-ativados derivados de micro-organismos extremófilos — organismos que sobrevivem em condições de calor e pressão extremas — estão sendo incorporados a formulações que buscam preparar a pele para o estresse antes que ele ocorra. Ceramidas biomiméticas desenvolvidas para reforçar especificamente a barreira cutânea sob agressão ambiental. Plataformas de inteligência artificial que cruzam dados de exposição UV, umidade e poluição local para personalizar recomendações de cuidado em tempo real. O mercado global de produtos responsivos ao clima era estimado em US$ 225 milhões em 2024 e deve ultrapassar US$ 2 bilhões até 2034. Os números refletem uma demanda real — não uma aposta publicitária.

Para o paciente que me consulta, porém, o que importa é mais simples e mais urgente: o que faço agora, com o clima que tenho, na cidade onde vivo? A resposta começa pela hidratação — não como ritual cosmético, mas como estratégia de manutenção de barreira. Produtos que apenas repõem água sem fortalecer o estrato córneo são insuficientes para o contexto atual. A fotoproteção de amplo espectro continua sendo inegociável e, cada vez mais, precisa ser complementada por barreiras físicas e por formulações que ofereçam proteção contra luz visível — um vetor de dano ainda subestimado. Os antioxidantes tópicos deixaram de ser um diferencial e passaram a ser necessidade, dado o estresse oxidativo crônico que a poluição impõe à pele urbana. E os produtos antipoluição, antes nicho, tornaram-se rotina para quem vive em metrópoles.

Cuido de pele há anos. Nunca precisei conhecer tanto de climatologia para fazer bem o meu trabalho. Isso diz algo sobre onde estamos — e sobre onde a medicina precisa ir.

Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da Dra Marcela baraldi, autora do artigo: O Clima Mudou. A Pele Também.
Dra. Marcela Baraldi – Foto: Arquivo pessoal

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