Escrito por Daniel Medeiros | 13 de abril de 2026
Six, seven. Enquanto as palavras do algoritmo projetam-se sobre o rosto da nova geração, o livro de observação crítica aguarda — em silêncio — na prateleira - Foto: Divulgação
POR - DANIEL MEDEIROS
É a nova febre das redes sociais e também nas salas de aula — ou onde quer que haja uma aglomeração de jovens da geração alfa. Pulando e agitando os braços, alternando as palmas para cima e para baixo de forma rítmica, enquanto gritam: six, seven. Os adultos, professores em particular, olham para a cena coletiva sem entender. Muitos não entendem até hoje. Há apenas perplexidade e irritação.
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Na verdade, não há o que entender. É só mais uma manifestação do que se convencionou chamar de "cérebro podre", que produz essa e outras gírias esdrúxulas no ambiente escolar. E a escola que trate de lidar com mais esse problema.
O six seven é um dos elementos que compõem o ecossistema do brain rot, expressão que se tornou a palavra do ano de 2024 pelo dicionário Oxford. Essa forma de comunicação evidentemente não mira os adultos, o que contribui para gerar o chamado efeito cringe — o estranhamento. Daí a diversão.
O problema é que esse "pesadelo" pedagógico — pois explode na sala de aula toda vez que os números 6 e 7 aparecem (ou muitas vezes sem que seja necessária qualquer motivação) — interrompe o fluxo de pensamento lógico com sua interjeição aleatória e viciante. Dá-lhe risada. E lá se vai o momento de reflexão ou de atividade lógica, incapaz de competir com essa descarga inebriante de dopamina. Ao final, o tempo útil da aula fica ainda mais curto.
O brain rot descreve a suposta "deterioração" cognitiva e intelectual causada pelo consumo excessivo de conteúdos digitais de baixa qualidade, hiperestimulantes e fragmentados. O six-seven, por exemplo, nasceu de uma associação aleatória de fragmentos de informação e imagens das redes sociais: primeiro, a altura do jogador da NBA LaMelo Ball, que é de seis pés e sete polegadas; depois, pelo sucesso da música "Doot Doot (6 7)", do artista Skrilla, que repete esses números exaustivamente. O resto é o sucesso do gesto e da repetição do meme — algo puramente performativo e sem sentido, usado como resposta para qualquer pergunta, ou simplesmente pela satisfação primitiva de gritar os números em corredores escolares e sinalizar que estão "por dentro" das tendências do TikTok.
Ao contrário das gírias que substituem palavras ou expressões, ou sintetizam um momento ou um sentimento, o six, seven virou uma espécie de código de pertencimento que não comunica uma ideia, mas sim uma estética. Uma estética da qual o conhecimento, o diálogo, a admiração e o interesse genuíno por algo ou alguém estão ausentes. Trata-se, portanto, de uma agressão aos estatutos civilizatórios que, aos trancos e barrancos, a escola vem tentando cultivar e disseminar às novas gerações desde o fim do século XIX.
Diante desse perigo, há algo que possa ser feito? O caminho mais evidente é o controle do uso das redes por menores de idade. A Austrália foi pioneira ao aprovar, em dezembro de 2024, uma lei inédita que proíbe menores de 16 anos de possuir contas em redes sociais — Instagram, TikTok, YouTube e similares. O mais relevante nessa providência é que a responsabilidade pela verificação de idade recai sobre as próprias empresas, sujeitas a multas de até 49,5 milhões de dólares australianos em caso de descumprimento. A França aprovou recentemente uma "maioridade digital" aos 15 anos: abaixo dessa idade, o uso das redes só é permitido com consentimento explícito dos pais ou responsáveis. O mesmo ocorre em alguns estados norte-americanos, como a Flórida.
No Brasil, por meio da Lei 15.211/2025, aprovada em março deste ano, menores de 16 anos são obrigados a vincular suas contas de redes sociais ao perfil de um responsável legal. A lei exige que as plataformas adotem sistemas reais de verificação de idade — inteligência artificial ou documentos —, indo além da simples autodeclaração.
Há quem veja nisso uma "agressão" à liberdade de acesso à informação, apontando para um dilema de difícil solução. Faria sentido, se fosse possível enquadrar o brain rot em qualquer rubrica de informação. Derreter o cérebro da nova geração é uma negligência que o futuro próximo cobrará em desqualificação da vida pública e em adesão a soluções políticas cujos métodos de cooptação se darão por meio de frases vazias e engraçadas. Afinal, é assim que a geração alfa está sendo "educada" neste momento — isso se não aplicarmos a legislação existente de forma intensa e permanente.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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