Biodiversidade Cultura Destaques Economia e Negócios Meio Ambiente Sustentabilidade Turismo
Escrito por Neo Mondo | 1 de abril de 2026
Arte que observa a natureza com precisão quase científica e devolve ao olhar humano a força silenciosa da biodiversidade - Foto: Divulgação
Por - Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Grande Reserva Mata Atlântica, especial para Neo Mondo
Pintores, ceramistas, ilustradores e artesãos do Paraná, Santa Catarina e São Paulo unem talento, identidade e valorização da conservação da natureza em um dos territórios mais biodiversos do mundo
As florestas são capazes de se expressar por muitas vozes. Umas cantam, se comunicam, outras sussurram — e algumas pintam, moldam, esculpem e costuram o que a natureza revela em silêncio. É assim na Grande Reserva Mata Atlântica, território de quase três milhões de hectares de Mata Atlântica, que se estende entre os estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, onde artistas, de diferentes gêneros, idades e talentos, moldam argila, madeira, pele de peixe, tintas, óleos e pigmentos naturais, transformando a inspiração ofertada pela biodiversidade em linguagem de arte.
Leia também: Biodiversidade entra no centro das decisões econômicas à medida que a crise climática redefine a economia global
Leia também: Ekôa Park completa oito anos e consolida a biomimética como ferramenta estratégica para empresas e territórios
O resultado é um mosaico de talentos que atravessa montanhas, rios e áreas naturais, revelando a força criativa de um Bioma que, assim como a arte, resiste ao tempo.
“A Grande Reserva Mata Atlântica é mais do que um território de natureza. É também uma galeria viva de arte e identidade, na qual cada artista ajuda a revelar o valor cultural desse importante lugar”, afirma Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva Mata Atlântica. “Eles traduzem, por meio da arte, o mesmo propósito que nos move: conservar o que é essencial para a manutenção da vida na Terra”.
Paraná
Em Morretes, no litoral do Paraná, entre rios e montanhas, a artista Isaurina Maria dedica décadas de sua vida à ilustração naturalista e científica. Suas aquarelas e pinturas a óleo não apenas retratam espécies da Mata Atlântica: revelam histórias. Desde que ajudou a fundar o Centro de Ilustração Botânica do Paraná (CIBP), na década de 1990, Isaurina participou de exposições internacionais e de publicações que se tornaram referência no Brasil e no mundo.
“Minha arte nasceu da floresta e é para ela que eu volto todos os dias”, diz. E volta mesmo: em 2025, ela apresentou obras no Festival da Montanha, em Porto de Cima, e no 3º Ontithos – Grande Reserva Mata Atlântica, reafirmando sua estreita ligação e vínculo com o território.
Também em Morretes e Antonina, a ManuPekena Biscuit, idealizada pela artesã e empreendedora social Emanuele Nascimento, a Manu, transforma massinha em caminho de autonomia para mulheres do município e entorno. Inspirada pela fauna e flora da Mata Atlântica, a marca capacita mulheres em situação de vulnerabilidade, formando uma rede de produção domiciliar que une autonomia, renda e pertencimento. Cada peça — um chaveiro, imã ou mini escultura — é moldada à mão, acompanha o nome da produtora e uma cartinha que conta sua história e informações sobre a espécie moldada. Com treinamentos contínuos, práticas sustentáveis e parcerias corporativas alinhadas à agenda ESG, a ManuPekena Biscuit mostra que arte, quando feita com propósito, também é um ato de transformação coletiva.
A partir de coleções inspiradas na fauna da Mata Atlântica, o projeto capacita produtoras, organiza uma rede domiciliar de produção escalável (com moldes padronizados sem perder o toque artesanal) e entrega souvenirs e brindes corporativos com propósito — cada peça vai com o nome de quem a fez e uma cartinha sobre sua história. Com rotina de formação técnica e socioemocional, auxílio-alimentação inicial, embalagens simples e reutilizáveis e medições de impacto (ESG) para parceiros, a ManuPekena une arte, renda e pertencimento: “arte feita à mão, vidas transformadas, natureza respeitada”.
Já o ceramista Marcel Fernandes, residente em Antonina, no coração da Mata Atlântica paranaense, molda a argila como quem escuta a terra. Suas coleções — Asas da Paisagem, Coleção Fungos e Série Botânica — são sínteses poéticas do território: traduzem a floresta, o manguezal e a umidade da serra em forma, textura e essência.
“Minhas peças não são objetos; são paisagens interpretadas pela mão”, afirma o artista, que já apresentou seu trabalho no Museu Oscar Niemeyer (MON), na CASACOR de diferentes estados — Paraná, Santa Catarina e Pernambuco — e no Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro. Criadas também com argilas locais e marcadas pela observação sensível do entorno, suas esculturas carregam a memória material do lugar. Em sua obra, a cerâmica deixa de ser apenas matéria para tornar-se cartografia viva do território.
Em Antonina, a bióloga e artesã Leocília Oliveira da Silva tem o dom de transformar o que antes era resíduo — a pele e as escamas do pescado — em biojoias e acessórios sustentáveis. À frente da COPESCARTE, cooperativa fundada por mulheres marisqueiras, ela conta que “cada peça carrega o mar e a história das mulheres de Antonina”, diz.
Leocília é reconhecida como pioneira no beneficiamento de couro de peixe no Brasil e sua iniciativa, certificada no ano de 2011 pela Fundação Banco do Brasil como Tecnologia Social, simboliza um novo ciclo para as comunidades costeiras: o de criar sem degradar e gerar renda sem esgotar os recursos naturais marinhos. Um ano depois, em 2012 o projeto concorreu ao prêmio Valores do Brasil, também promovido pela Fundação, e venceu na categoria Desenvolvimento Regional Sustentável, Região Sul do país.
A artista norte-americana
Em 2016, Kitty fundou a ONG Artists & Biologists Unite for Nature (ABUN), que une arte e ciência em prol da proteção das espécies ameaçadas. Suas aquarelas e pinturas — muitas inspiradas na Mata Atlântica e reconhecidas por instituições como o ICMBio e a Artists for Conservation — ajudam a projetar internacionalmente a beleza e a importância da biodiversidade presente no território da Grande Reserva Mata Atlântica.
Já em Guaraqueçaba, está Samuel Duleba, criador da marca BirdLife Cerâmica. Inspirado pela natureza em sua essência mais selvagem, o artista transforma argila em celebração da vida. Cada peça é uma homenagem às aves da Mata Atlântica — suas formas, cores e movimentos — traduzidas em esculturas e objetos que unem estética e sensorialidade. Com texturas únicas e uma paleta vibrante, a BirdLife Cerâmica busca despertar memórias afetivas e reconectar o olhar humano ao mundo natural. “Mais do que objetos, criamos experiências que aproximam as pessoas da natureza”, define Samuel. Arte viva, feita à mão, com alma e propósito: a BirdLife é a natureza moldada em barro.
Santa Catarina
Há 25 anos atuando como marceneiro, Rogério Sauer encontrou em São Francisco do Sul (SC) um novo sentido para seu ofício. Residente no município há nove anos, ele passou a recolher madeiras trazidas pelo mar — troncos e galhos de espécies nativas da Mata Atlântica, como canela, cedro, canjerana, araribá e cabreúva — e a transformá-los em peças utilitárias e decorativas. Luminárias, tigelas e fruteiras ganham forma em seu ateliê, unindo arte, sustentabilidade e reaproveitamento de recursos naturais. A produção artesanal, de pequena escala, é comercializada em feiras locais, onde turistas e moradores encontram objetos que carregam a beleza e a história das florestas.
Em meio à vegetação exuberante do Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) de São Francisco do Sul (SC), a designer e artista plástica Ângela Giseli, 54 anos, encontrou um novo ponto de partida para sua arte após a pandemia de 2020. Curitibana de origem, ela se mudou para o litoral norte de Santa Catarina e deu início ao projeto “Mata Atlântica: fauna e flora”, no qual representa espécies nativas com realismo e sensibilidade, utilizando diferentes suportes e técnicas. Suas obras combinam pintura sobre madeira de demolição, esculturas de passarinhos e composições que integram pintura e escultura, criando peças que levam o colorido e a serenidade da floresta para dentro dos espaços humanos. “Busco retratar com fidelidade para que as pessoas possam admirar e sentir um pouco da paz da natureza, mantendo os originais em seus habitats — e, assim, preservando o que é nosso”, explica a artista.
No Vale dos Encantos, em Jaraguá do Sul, o artista visual Cássio Marcel busca na natureza não apenas inspiração, mas equilíbrio. Depois de anos trabalhando no setor têxtil e de turismo de aventura, ele trocou comunicação por cultura, usando a ilustração e as tintas deixar mais vivas da cidade e trilhas da Serra do Mar. Suas pinturas e pirogravuras retratam aves, rios e formações geológicas, unindo filosofia e ecologia. “A arte é o meu modo de desacelerar o mundo”, diz. “Na floresta, cada som é um lembrete de que estamos vivos”.
Entre Florianópolis e a Ilha do Mel, entre o mar e a floresta, Lenise Scharf, designer gráfica por profissão, aprendeu diversas técnicas relacionadas à arte. Ilustração, aquarela, gravuras, fotografia, foram algumas das experiências aprendidas, que continua executando. Mas foi com a cerâmica fria que ela encontrou a ligação entre três paixões: a modelagem, a pintura e a natureza, neste caso mais específico, os passarinhos. De fotografias e observações da designer, nascem tiés-sangue, gaturamos-verdadeiro, cambacicas, sanhaços, papagaios e tudo mais que a natureza oferecer de inspiração.
São Paulo
Na região de Tapiraí, no coração da Mata Atlântica paulista, a Casa da Mata é mais do que um ateliê — é uma experiência sensorial. Fundada por Patrícia Lorenzino, o espaço abriga ateliê, restaurante e hospedagem integrados às áreas nativas.
Patrícia pinta moringas e filtros de barro à mão, inspirada nas mais de 200 espécies de aves que sobrevoam o terreno de 280 mil metros quadrados de mata preservada. Em parceria com a ceramista Juliana Alberti, criou uma instalação com peças moldadas e pintadas individualmente, formando quadros orgânicos aplicados às paredes. “Cada criação é uma conversa entre gesto e natureza”, diz Juliana. As obras, disponíveis na própria Casa da Mata, são um convite a quem deseja sentir a floresta com todos os sentidos.

No Vale do Ribeira, também em SP, a artesã e presidente da Associação Banarte, Léia Alves, transforma a fibra de bananeira em arte e fonte de renda sustentável para dezenas de mulheres da região. À frente da Banarte desde 2018, Léia consolidou a instituição como uma referência em economia criativa e valorização da cultura caiçara, levando o artesanato sustentável do interior paulista a feiras nacionais como a CASA COR, Feira do Empreendedor (Sebrae/SP) e o Revelando São Paulo. O grupo, criado em parceria com a ESALQ/USP e a Prefeitura de Miracatu, utiliza resíduos da bananicultura — abundante no Vale — para criar peças decorativas e utilitárias que unem design, identidade territorial e sustentabilidade. “A fibra de bananeira é a base do nosso trabalho e também um símbolo de resistência. Com ela, mostramos que é possível gerar renda e preservar o meio ambiente”, afirma Léia.
A arte como geografia do pertencimento
Para Marcos Cruz, coordenador da Rede de Portais da Grande Reserva Mata Atlântica, o território revela na arte uma de suas expressões mais autênticas.
“Esses artistas não apenas retratam as riquezas naturais da Grande Reserva — eles a escutam. Cada traço, cor ou textura é uma forma de traduzir o que a natureza sussurra. Quando suas obras chegam a outros lugares do Brasil e do mundo, levam junto as singularidades da região”.
Assim como as árvores que se conectam por raízes invisíveis aos nossos olhos, os artistas da Grande Reserva formam uma rede viva de criação, trocas e sentido. São pintores, escultores, ceramistas e artesãos que transformam o Bioma em arte. E a arte em memória.
SPVS lança videocast sobre parceria internacional com a Fundação Loro Parque
SP Ocean Week lança mobilização nacional para conscientização sobre a importância do Oceano