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Gás renovável sem trocar o botijão: a primeira importação de BioGL do Brasil

Escrito por Neo Mondo | 6 de abril de 2026

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Gás sem petróleo: a embarcação que aportou em Tergasul na última quinta-feira carrega o mesmo combustível de sempre — produzido, desta vez, a partir de óleos vegetais e resíduos orgânicos - Foto: Divulgação/Supergasbras

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Supergasbras traz da Europa carga-piloto de 1.700 toneladas de combustível produzido a partir de óleos vegetais e resíduos orgânicos — com a mesma infraestrutura do GLP e certificação rastreável do porto à caldeira

Um navio europeu atracou no Porto de Tergasul, no Rio Grande do Sul, na última quinta-feira carregando 1.700 toneladas de uma substância que, na aparência e no comportamento, é idêntica ao gás de cozinha — mas que nunca passou por uma refinaria de petróleo. Era BioGL, versão renovável do GLP produzida a partir de óleos vegetais e gorduras residuais, e sua chegada ao Brasil pela Supergasbras inaugurou algo que o setor de energia discutia há anos como possibilidade: a inserção comercial, em escala logística real, de um combustível líquido renovável que não exige a substituição de nenhum equipamento, nenhum botijão, nenhuma tubulação.

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O porto de entrada não foi escolhido por acaso. Tergasul é o primeiro terminal brasileiro a obter a certificação internacional ISCC Plus — esquema reconhecido globalmente para rastrear a origem renovável e os critérios socioambientais de insumos ao longo de toda a cadeia de suprimento. Sem esse elo de rastreabilidade, a carga seria apenas gás. Com ele, torna-se um ativo certificável para metas ESG, com histórico verificável de origem desde a matéria-prima até o produto final.

A operação é da Supergasbras, distribuidora controlada pelo grupo holandês SHV Energy, e representa a consolidação de uma trajetória que o grupo já percorria na Europa há anos. A companhia comercializa BioGL no continente europeu há tempo suficiente para conhecer os gargalos de escala e vinha trabalhando para trazer o produto ao Brasil por duas frentes simultâneas: a importação, que a carga-piloto desta semana materializa, e o desenvolvimento de rotas nacionais de produção em parceria com universidades federais — UFF, UFRJ e instituições em Minas Gerais, Santa Catarina e Bahia —, pesquisando fontes que vão da cana-de-açúcar e do milho até resíduos plásticos.

O argumento técnico central que sustenta a aposta é direto: o combustível oferece eficiência energética cerca de 34% superior à do biometano e pode ser distribuído pela mesma infraestrutura capilarizada que já abastece aproximadamente 10 milhões de famílias e mais de 60 mil clientes industriais e comerciais no país. Num Brasil onde o GLP está presente em lares, frigoríficos, laticínios e agroindústrias de norte a sul, essa compatibilidade elimina a principal barreira que trava outros combustíveis renováveis: a necessidade de construir uma nova cadeia de distribuição do zero.

O mecanismo de comercialização adotado segue o modelo de certificação por balanço de massa, amplamente utilizado na Europa para biocombustíveis. O cliente não recebe necessariamente moléculas físicas de BioGL em seu tanque — recebe o certificado ISCC Plus correspondente ao volume proporcional adquirido, com a economia de CO₂ comprovada e rastreável. Após cada entrega, o documento emitido internacionalmente comprova a origem sustentável do produto e a redução efetiva de emissões. Esse modelo permite escalar o produto sem que toda a logística precise ser fisicamente segregada — solução pragmática que encurta o caminho até a adoção em larga escala, com distribuição operando pelas unidades de Canoas, Araucária e Betim.

O alvo inicial são indústrias e empresas do agronegócio com metas de descarbonização formalizadas. A escolha não é arbitrária: esses setores respondem por parcela expressiva do consumo de GLP a granel no Brasil e estão sob pressão crescente de investidores, reguladores e cadeias de valor internacionais para apresentar reduções verificáveis de emissões. O BioGL, com emissão líquida zero de CO₂ — a queima libera o mesmo carbono absorvido durante o crescimento das plantas usadas na produção —, oferece exatamente o tipo de evidência auditável que esses compradores precisam. Não é retórica de sustentabilidade; é documento.

O contexto global em que essa operação se insere é de expansão acelerada. O mercado europeu de BioGL atingiu 391 mil toneladas em 2024 e projeta crescimento próximo a 20% ao ano até 2034, impulsionado pelos mandatos de decarbonização da União Europeia. A Europa concentra hoje a maior parte da produção e do consumo mundiais do combustível, e a infraestrutura regulatória que consolidou esse mercado — do Fit for 55 ao REPowerEU — vem pressionando produtores como Neste, ENI e TotalEnergies a ampliar capacidade. A SHV Energy figura entre os líderes globais desse segmento, o que coloca a Supergasbras em posição de transferir para o Brasil um conhecimento operacional que levou anos para se consolidar na Europa.

O que a operação desta semana revela, porém, vai além do produto em si. Ela aponta para a maturidade logística que o Brasil já possui para absorver combustíveis renováveis que aproveitem redes existentes — e para o quanto o setor industrial brasileiro está disposto a pagar por credenciais de descarbonização verificáveis. O BioGL chega sem precisar convencer ninguém a trocar o fogão ou o queimador da caldeira. O Ministério de Minas e Energia concluiu recentemente trabalhos técnicos que incluíram análise do potencial do BioGL para descarbonizar os setores residencial e industrial aproveitando a infraestrutura de distribuição já capilarizada no território — sinal de que o produto começa a encontrar também o ambiente regulatório de que precisa para avançar.

A carga-piloto de 1.700 toneladas é pequena diante da escala do mercado brasileiro. Mas mercados não se abrem com escalas — abrem-se com precedentes.

Fontes:

Supergasbras, Nota de Imprensa sobre a Primeira Importação de BioGL do Brasil, 2026 Expert Market Research, Europe BioLPG Market Report and Forecast 2025–2034, 2025 OPIS / Chemical Market Analytics, European LPG: Navigating the Energy Transition and Regulatory Market Shift, 2024 Cenário Energia, CNPE Conclui Estudos Estratégicos sobre BioGLP e Combustíveis Sustentáveis, 2026 SGS Brasil, Certificação ISCC Plus, 2024.

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