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Conflito no Oriente Médio reacende alerta nas cadeias de suprimentos e abre debate sobre reciclagem estratégica

Escrito por Neo Mondo | 23 de março de 2026

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Conflito no Oriente Médio coloca os Estados Unidos no centro das tensões geopolíticas que ameaçam cadeias globais de suprimentos e pressionam mercados de energia em escala mundial. - Foto: Getty Images

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POR - MARCELO SOUZA, ESPECIAL PARA NEO MONDO

Embora o epicentro do conflito esteja a milhares de quilômetros do Brasil, seus efeitos podem rapidamente atravessar oceanos e impactar setores industriais inteiros. Em uma economia global interconectada, crises regionais têm potencial de provocar repercussões globais, especialmente quando envolvem rotas logísticas estratégicas e commodities energéticas.

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Para compreender esses efeitos, é útil olhar a questão em dois níveis. Primeiro, a visão macro “floresta”, analisando os impactos nas cadeias globais de suprimentos. Depois, a visão micro “árvore”, observando como setores específicos, como a reciclagem, podem ser afetados.

A visão da “floresta”: cadeias globais sob pressão

Na perspectiva da floresta, conflitos como o atual envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos costumam gerar reações imediatas nos mercados internacionais. A possibilidade de instabilidade em rotas comerciais estratégicas, como o Estreito de Ormuz, ou no fornecimento de energia aumenta a percepção de risco e pressiona custos logísticos em diversas cadeias produtivas.

Grande parte da indústria mundial depende de fluxos contínuos de matérias-primas, componentes e insumos que percorrem longas distâncias entre países. Quando tensões geopolíticas elevam custos de transporte, encarecem seguros marítimos ou criam incertezas nas rotas comerciais, o impacto se espalha rapidamente por diferentes setores produtivos.

A reação recente do mercado de energia ilustra esse efeito. Desde o início das hostilidades no Oriente Médio, o petróleo acumulou valorização superior a 40%, refletindo o receio de interrupções no fornecimento global. Analistas do setor alertam que, caso haja bloqueio do estreito de Ormuz ou interrupção prolongada das exportações da região, o barril poderia atingir US$ 150, um choque capaz de pressionar custos logísticos e industriais em escala global.

Apesar de agudo, esse comportamento do mercado não é novidade. Conflitos envolvendo regiões produtoras de petróleo historicamente provocam choques relevantes de preços. Foi assim durante a Revolução Iraniana em 1979, na Guerra do Golfo em 1990 e mais recentemente após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Quando a energia se torna mais cara, os efeitos se espalham rapidamente: transporte, combustíveis e insumos petroquímicos mais caros. E aqui surge uma conexão menos evidente, mas estratégica, a competitividade da reciclagem.

A indústria petroquímica, base da produção de plásticos virgens, depende diretamente de derivados do petróleo. Quando o preço da energia sobe, o custo dessas matérias-primas tende a acompanhar o movimento. Como consequência, materiais reciclados podem ganhar competitividade frente às resinas virgens.

A visão da “árvore”: impactos no setor de reciclagem

Quando observamos com mais atenção para setores específicos, surgem impactos menos visíveis, mas igualmente relevantes. Um exemplo é o mercado de reciclagem de resíduos eletrônicos.

No Brasil, uma parcela significativa de materiais de alto valor, especialmente placas eletrônicas (PCBs), ainda precisa ser exportada para refinarias metalúrgicas especializadas no exterior, muitas delas localizadas na Ásia. Estas placas contêm metais valiosos como, cobre, ouro, prata e paládio, cuja recuperação exige processos metalúrgicos avançados que ainda são limitados no país.,

Por isso, parte relevante desses resíduos seguem para refinarias internacionais. Esse modelo depende de rotas marítimas globais estáveis.

Com o aumento das tensões no Oriente Médio, operadores logísticos e exportadores já começam a enfrentar desafios como, o aumento do prêmio de seguro marítimo, adesão de rotas logísticas mais longas ou desviadas, elevação do custo de frete internacional e atrasos no transporte marítimo. Em alguns casos, exportadores relatam dificuldade em viabilizar economicamente os embarques. O episódio evidencia uma fragilidade estrutural, a dependência de infraestrutura internacional para o processamento de materiais estratégicos contidos nos resíduos eletrônicos.

Economia circular como estratégia de resiliência

Se o acesso a matérias-primas se torna mais caro ou incerto, cresce a relevância de fontes alternativas de recursos. Ou seja, resíduos passam a ser vistos não apenas como passivos ambientais, mas como reservas de matérias-primas secundárias. Placas eletrônicas, por exemplo, frequentemente apresentam concentrações de metais valiosos superiores às encontradas em muitos minérios naturais. Aquilo que hoje é exportado como resíduo pode, no futuro, ser tratado como um recurso estratégico.

Essa lógica está no centro do conceito de mineração urbana, que enxerga resíduos como reservas de materiais críticos. Nas últimas décadas, a economia global foi estruturada para maximizar eficiência logística e reduzir custos. Mas eventos recentes, da pandemia à guerra na Ucrânia e agora às tensões no Oriente Médio, mostram que resiliência também precisa fazer parte da equação. Assim, materiais reciclados tendem a ganhar competitividade econômica à medida que matérias-primas virgens se tornam mais caras ou mais difíceis de acessar. Ao mesmo tempo,

a dificuldade logística para exportar resíduos eletrônicos levanta uma questão estratégica para o Brasil: por que não ampliar a capacidade nacional de recuperação de metais críticos?

Países que desenvolvem capacidade de recuperar materiais críticos a partir de resíduos reduzem sua dependência de cadeias internacionais instáveis e fortalecem a sua autonomia produtiva. O paradoxo é evidente, enquanto o mundo discute segurança de cadeias de suprimentos, o Brasil ainda exporta toneladas de resíduos eletrônicos que contêm metais valiosos. Em vez de tratá-los apenas como lixo, talvez seja hora de encará-los como parte da estratégia industrial do país.

Marcelo Souza é presidente do INEC, CEO da Indústria Fox e autor dos livros “Reciclagem de A a Z – Circularidade de recursos para um futuro sustentável” e “Economia Circular: o mundo rumo à quinta revolução industrial”.

foto de marcelo souza, autor do artigo Conflito no Oriente Médio reacende alerta nas cadeias de suprimentos e abre debate sobre reciclagem estratégica
Marcelo Souza - Foto: Divulgação

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