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Escrito por Neo Mondo | 6 de abril de 2026
Guerra no coração da energia global: enquanto o fogo avança sobre a infraestrutura e os caças cruzam o céu, o mundo assiste ao colapso silencioso das cadeias que sustentam petróleo, alimentos e estabilidade econômica - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Como o conflito entre EUA, Israel e Irã está redesenhando a economia global — e por que Washington ainda não calculou a conta que vai pagar
Em 28 de fevereiro de 2026, quando as primeiras bombas americanas e israelenses atingiram o território iraniano sob a Operação Epic Fury, os mercados de petróleo responderam em minutos. O Brent subiu entre 10% e 13% antes do fim do dia. O tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz caiu cerca de 70%, e mais de 150 navios ficaram ancorados fora da passagem, aguardando condições de segurança que não vieram. Não era um choque de mercado. Era o começo de uma reconfiguração econômica global que ninguém — menos ainda Washington — havia calculado com honestidade.
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O Estreito de Ormuz tem 34 quilômetros de largura e carrega o peso do mundo. Pelo corredor passam 25% a 30% do petróleo global e 20% do gás natural liquefeito, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Quando o Irã emitiu avisos de interdição e a Guarda Revolucionária começou a atacar embarcações, não bloqueou apenas o abastecimento de energia — bloqueou o nervo central de um sistema de produção global que vai muito além do barril de petróleo. A interrupção reduziu o fornecimento global em cerca de 20% e cortou o suprimento de petroquímicos necessários para itens do cotidiano, de calçados a embalagens médicas.
O Fundo Monetário Internacional não esperou para emitir seu diagnóstico. Em nota assinada pelos principais economistas do organismo, a instituição afirmou que "embora a guerra possa moldar a economia global de diferentes maneiras, todos os caminhos levam a preços mais altos e a um crescimento mais lento." É uma formulação rara para um organismo treinado na cautela técnica. Não há saída que preserve o status quo anterior. Nenhuma.
A porta-voz do FMI, Julie Kozack, precisou o que "preços mais altos" significa na prática: se o petróleo permanecer acima de US$ 100 por barril por um ano ou mais, a inflação global pode subir até 2 pontos percentuais, enquanto o crescimento econômico pode cair cerca de 1 ponto percentual. O Brent já negociava por volta de US$ 110 quando Kozack falou — alta de 52% em relação ao período anterior ao conflito. O diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, acrescentou que mais de 12 milhões de barris foram perdidos desde o início da guerra, com perdas projetadas para dobrar em abril em relação a março.
O que separa este choque dos anteriores não é apenas a magnitude — é a simultaneidade. Em 2022, a invasão da Ucrânia perturbou o fornecimento de grãos do Mar Negro e de gás para a Europa. Doloroso, mas geograficamente delimitado. Desta vez, ao contrário da crise de 2022, o choque atual é mais abrangente e imediato, atingindo simultaneamente vários pilares do sistema alimentar global — energia, fertilizantes e logística. Como descrevem analistas consultados pelo Financial Times: não se trata de perturbações logísticas, mas de uma quebra efetiva na disponibilidade de recursos essenciais.
O elo mais frágil desta cadeia não é o petróleo. São os fertilizantes. Cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, enquanto países da região respondem por aproximadamente 49% das exportações globais de ureia e 30% das de amônia. A ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados, disparou mais de 70% no ano, chegando a cerca de US$ 690 por tonelada no fim de março. O timing é o que torna a situação estruturalmente perigosa: a guerra eclodiu no início da janela de plantio do hemisfério norte. O vice-diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos, Carl Skau, alertou que a grande preocupação está na interrupção dos mercados globais de fertilizantes "justamente quando a África Subsaariana se prepara para a época de plantio."
A FAO adverte que, se o conflito se estender por mais de 40 dias, agricultores ao redor do mundo podem ser forçados a reduzir o uso de fertilizantes ou diminuir a área plantada, o que resultaria em quebras nas safras futuras e perpetuaria a pressão sobre os preços em 2027. As ondas de choque, em outros termos, não terminam com o cessar-fogo. Elas se inscrevem nas próximas colheitas.
O Programa Mundial de Alimentos estima que 45 milhões de pessoas adicionais podem entrar em situação de fome aguda caso o conflito se prolongue até junho. Esse número se soma a mais de 300 milhões que já enfrentavam insegurança alimentar antes dos ataques. Estimativas citadas pelo Financial Times apontam que, se os preços dos fertilizantes se mantiverem elevados, os preços globais dos alimentos podem aumentar entre 60% e 100%. Não é uma projeção catastrofista. É aritmética de cadeias de suprimento.
Os grandes importadores de energia da Ásia absorvem o choque de maneira desigual. Filipinas, Vietnã e Tailândia já adotaram medidas emergenciais para conter o consumo de combustível. A Europa, que mal havia estabilizado o custo de energia após a crise da Ucrânia, enfrenta uma nova rodada de pressão inflacionária. Projeções indicam que, se o conflito persistir, o crescimento na zona do euro pode cair para cerca de 0,5%, enquanto na China pode ficar abaixo de 3%. A inflação europeia pode ultrapassar 4%. São economias que chegam a este choque com pouca margem fiscal e bancos centrais que já haviam reduzido juros apostando numa acomodação que o Golfo Pérsico desfez em semanas.
O paradoxo americano é o mais revelador de todos. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo, com 13,6 milhões de barris diários — e, ainda assim, a guerra que iniciaram não os blindou do choque que desencadearam. O fechamento do Estreito de Ormuz revelou-se o fator mais temido do conflito: o preço da gasolina nos EUA subiu 19% desde o início das operações, em 28 de fevereiro, atingindo uma média de US$ 3,54 por galão. A Casa Branca se mostra de mãos atadas para reabrir a via, o que depende mais do Irã do que do poderoso arsenal americano.
O Goldman Sachs revisou projeções e estima que a probabilidade de recessão na economia americana subiu para 25%. O Federal Reserve manteve os juros entre 3,5% e 3,75% e projetou inflação mais alta para 2026 — o índice PCE deve terminar o ano em 2,7%, acima dos 2,4% previstos em dezembro. Powell rejeitou publicamente o termo "estagflação", mas o dilema que enfrenta tem nome: qualquer corte de juros para estimular a atividade pode alimentar a inflação; qualquer manutenção pode aprofundar a desaceleração. O choque petrolífero resultante da guerra com o Irã é potencialmente maior do que o da guerra na Rússia, porque cria um choque de oferta que se estende além do petróleo, elevando custos de energia e fertilizantes e prejudicando o plantio de alimentos.
Há um agravante que raramente aparece no noticiário financeiro: o choque energético se sobrepõe a tarifas comerciais protecionistas ainda vigentes. A combinação cria terreno fértil para a estagflação — crescimento fraco com inflação persistente. É a pior configuração possível para um banco central, porque as duas ferramentas disponíveis puxam em direções opostas.
O FMI não descarta a possibilidade de o sistema global entrar em um estado "transicional" — caracterizado por um período prolongado de energia cara e inflação persistentemente elevada, de difícil controle por meio dos instrumentos tradicionais de política monetária. A OMC sinalizou na mesma direção: a ordem comercial anterior sofreu mudanças que podem ser irreversíveis. Um retorno ao status quo é considerado improvável.
Para o Sul Global, a conta chega em outra moeda. O FMI alerta para o risco de insegurança alimentar, especialmente em países de baixa renda, num momento em que economias avançadas estão reduzindo sua assistência internacional. O Brasil, exportador líquido de petróleo mas importador de fertilizantes e derivados, enfrenta um quadro ambíguo: a principal preocupação do governo é o fornecimento de fertilizantes, fundamentais para a agricultura e que também transitam pela região, enquanto a instabilidade gera um efeito dominó nos custos de transporte e seguros marítimos. O país tem buscado ampliar compras do Marrocos e de países do Golfo, enquanto explora um projeto conjunto de fertilizantes e energia com a Bolívia.
O FMI, o Banco Mundial e a AIE já anunciaram a criação de um grupo de coordenação internacional para enfrentar os efeitos da crise. O objetivo declarado é preservar a estabilidade econômica e financeira global, reforçar a segurança energética e apoiar os países afetados em seu caminho para uma recuperação sustentada. O anúncio é, por si só, um sinal da gravidade percebida: as três maiores instituições multilaterais de gestão econômica global atuando de forma coordenada em resposta a um único conflito regional não tem precedente recente.
A história dos choques petrolíferos ensina uma coisa que os formuladores de política preferem ignorar na véspera das guerras: os efeitos sobre a economia real duram mais do que os conflitos que os provocam. A crise dos anos 1970 reconfigurou a política monetária global por uma década. A guerra da Ucrânia ainda pressiona os preços de energia na Europa três anos após o início das hostilidades. O que diferencia o Estreito de Ormuz de todas as crises anteriores é que nenhuma rota alternativa oferece a mesma capacidade logística — o desvio pelo Cabo da Boa Esperança adiciona semanas de navegação e eleva custos de forma estrutural. Cada semana de bloqueio inscreve um custo que nenhum cessar-fogo cancela retroativamente.
Washington sabia disso. Sabia que 20% do petróleo global passava por aquela faixa d'água de 34 quilômetros. Sabia que o Irã tinha capacidade de minar o estreito e já havia sinalizado essa possibilidade como represália explícita. Sabia que os fertilizantes do Golfo alimentam as lavouras da África, da Índia e do Brasil. Decidiu avançar mesmo assim — e o mundo inteiro, de Minneapolis a Maputo, está pagando uma conta que não assinou.
Fontes:
Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook Blog: War in the Middle East — A Global Shock, 2026 Agência Internacional de Energia, Oil Market Report, março-abril 2026 Programa Mundial de Alimentos, declaração de Carl Skau, 2026 Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Food Price Index, março 2026 Goldman Sachs Research, US Economic Outlook: War Scenarios, 2026 Federal Reserve, FOMC Statement and Projections, março 2026 Bloomberg, Global Fertilizer Markets Under Pressure, março 2026 Organização Mundial do Comércio, Trade Outlook amid Middle East Conflict, 2026.
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